O Dia em que o Centrão Esnobou Lula


Você consegue imaginar um dos blocos políticos mais conhecidos por sua sede por cargos e verbas simplesmente recusar um ministério do governo federal? Pois foi exatamente isso que aconteceu. O Centrão, conhecido justamente por operar com base no "toma lá, dá cá", rejeitou o convite de Lula para assumir o Ministério das Comunicações.

Mas por quê? Qual o verdadeiro motivo por trás dessa recusa que, mais do que uma simples decisão estratégica, soou como um gesto de desprezo – uma humilhação explícita ao governo atual? Será que há mais nesse episódio do que o que os jornais mostraram?

Prepare-se. Porque o que à primeira vista parece apenas mais uma jogada política revela muito sobre como o poder é disputado nos bastidores do Congresso Nacional.


A Recusa Inusitada

Tudo parecia encaminhado. Após a saída de Juscelino Filho do Ministério das Comunicações – acusado de corrupção pela PGR –, o governo Lula se movimentou rapidamente para manter o ministério sob controle. O escolhido? Pedro Lucas, líder do União Brasil na Câmara.

Glaze Hoffman, ministra de Lula, chegou a anunciar sua nomeação com pompa. A decisão parecia consolidada. Havia um acordo com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, com o próprio Lula e com o partido. O recado da base aliada era claro: Pedro Lucas era o nome.

Mas então veio o balde de água fria: o parlamentar recusou o ministério. O anúncio foi desfeito e o constrangimento tomou conta do Planalto. A palavra "constrangimento", usada pela mídia, talvez não dê conta da verdadeira dimensão da situação. Foi uma afronta. Uma desfeita pública. Uma humilhação.

Por que alguém como Pedro Lucas – ou melhor, o União Brasil – recusaria um ministério inteiro?


O Cálculo Cru: Poder Pessoal Acima de Tudo

O que levou à recusa não foi um súbito acesso de princípios. Nem foi um gesto de oposição. Tampouco houve motivação técnica. O que falou mais alto? O puro e simples cálculo de poder.

Antônio Rueda, presidente do União Brasil, percebeu algo que mudava completamente o jogo: ao aceitar o ministério, ele perderia o controle da liderança do partido na Câmara. Em troca, ganharia um ministério já dominado por aliados de Alcolumbre – o mesmo Davi Alcolumbre que havia plantado seus quadros no Ministério das Comunicações enquanto Juscelino Filho esteve à frente da pasta.

Rueda entendeu que estaria assumindo um ministério sem poder de fato. E que, ao fazer isso, abriria mão do controle sobre a maior força da legenda na Câmara: sua liderança, seu peso nas comissões e sua capacidade de barganhar projetos.

Qual foi o resultado do cálculo?

Recusa.

Não por falta de interesse em servir ao país. Mas por perceber que o ganho pessoal seria menor do que a perda de influência. Em Brasília, a lógica é essa: o que não traz poder imediato, é descartável.


A Humilhação Pública e a Fragilidade do Governo Lula

Pedro Lucas foi anunciado publicamente. O governo celebrou o acordo. Mas, dias depois, a resposta veio como um "não" seco, direto, sem cerimônia.

E esse "não" revelou algo ainda mais profundo: o enfraquecimento da autoridade do governo Lula.

Pense comigo: qual partido da base aliada ousaria fazer uma desfeita tão explícita a um presidente no auge de seu poder? Nenhum. A recusa só foi possível porque o União Brasil sabia que o governo já não tem mais força para reagir à altura. Sabia que não haveria retaliação significativa. Sabia que não pagaria o preço político.

Quando um partido aliado recusa publicamente um convite e ainda constrange o presidente, isso diz muito sobre o estado das alianças políticas no país. Isso é sintoma de um governo frágil, que já não consegue se impor nem sobre seus próprios aliados.


A Política do “Eu Primeiro”

Talvez o ponto mais triste de toda essa história seja este: em nenhum momento se falou do interesse público.

Não houve uma única consideração sobre o que seria melhor para o país, para as comunicações, para os brasileiros. Nada de planos, propostas ou compromissos com políticas públicas. O que pesou na balança foi apenas: quem manda em quê? Quem tem mais influência? Quem pode nomear mais aliados?

E isso, infelizmente, não é exceção. É regra.

A recusa ao ministério foi apenas a superfície de uma engrenagem muito maior e mais antiga: a do fisiologismo que impera em Brasília. Um sistema onde os partidos disputam cargos e verbas como se estivessem num leilão, sempre em busca de maximizar o poder individual.

Isso nos leva a uma pergunta fundamental: como chegamos a esse ponto?


O Reflexo de um Sistema Podre

O episódio entre Lula e o União Brasil expôs, mais uma vez, o que há de mais perverso no nosso sistema político: a completa desconexão entre o poder e o bem comum.

Quando os partidos tratam ministérios como fichas de um jogo de pôquer, quem perde somos nós. O cidadão comum, o contribuinte, o eleitor. Nós, que precisamos de saúde, educação, segurança, desenvolvimento. E que assistimos à política ser transformada em uma luta por feudos e vaidades.

Se cargos são moeda de troca, políticas públicas viram consequência acidental – quando acontecem.


Um Exemplo de Fiscalização: O Caso do Jatinho no RS

Em contraste com esse cenário desolador, surgiu um pequeno ponto de luz – e um lembrete de que ainda há políticos dispostos a cumprir o seu papel.

No Rio Grande do Sul, o deputado estadual Felipe Camosato denunciou a intenção do governador Eduardo Leite de usar 100 milhões de reais – dinheiro destinado à reconstrução pós-enchentes – para comprar um jatinho. Isso mesmo: um jatinho.

Graças à atuação de Camosato, a compra foi suspensa. Ele mostrou que, sim, é possível agir com responsabilidade, fiscalizar com coragem e impedir absurdos com ações concretas.

Essa postura é exatamente o oposto do que vimos no caso do Ministério das Comunicações. Ali, o poder era fim em si mesmo. Aqui, o mandato foi usado como ferramenta de controle e defesa do interesse público.


Qual Caminho Vamos Escolher?

Diante de tudo isso, a reflexão é inevitável: vamos continuar aceitando essa lógica de poder sem propósito? Vamos continuar elegendo partidos que negociam ministérios como quem troca figurinhas?

Ou será que chegou a hora de buscar algo novo?

O caso da recusa do União Brasil mostra que não há fidelidade ideológica nas alianças do governo. Mostra que, no fundo, quase tudo gira em torno de cargos, verbas e controle.

Mas também nos mostra que existem alternativas. Que há políticos fiscalizadores, atentos, combativos. Gente que, mesmo em minoria, resiste ao sistema e defende o cidadão.


Conclusão: Um Chamado à Ação

O episódio da recusa do Centrão ao Ministério de Lula não é só um caso de bastidores. É um alerta. Um retrato da fragilidade do governo. Um retrato do fisiologismo do Congresso. Um retrato da política brasileira como ela realmente é – e não como se apresenta nos discursos de palanque.

Mas também é um convite à mudança.

Se queremos outro tipo de política, precisamos de outro tipo de político. E isso começa na escolha consciente de quem apoiamos, de quem seguimos, de quem elegemos.

Afinal, poder por poder... para quê?

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