Em 2020, no auge da pandemia de Covid-19, uma notícia chocou o país. O Consórcio Nordeste, grupo formado por governadores da região para aquisição conjunta de insumos médicos durante a emergência sanitária, havia feito uma compra misteriosa: 300 respiradores mecânicos no valor de R$ 48 milhões. Só que os equipamentos nunca chegaram. E o dinheiro? Sumiu.
Na época, Rui Costa, então governador da Bahia e presidente do consórcio, era visto como o principal responsável pelo desfecho da história. Agora, quatro anos depois, o caso volta ao Supremo Tribunal Federal (STF), onde segue como inquérito criminal sob relatoria do ministro Flávio Dino — ex-ministro da Justiça no governo Lula, e até recentemente colega direto de Rui Costa na equipe federal.
E é justamente essa proximidade entre os dois que gera dúvidas sobre o real interesse em resolver o caso. Será que o STF vai finalmente dar andamento à investigação? Ou será mais uma daquelas histórias que ficam engavetadas, esquecidas, enquanto o povo brasileiro segue pagando as contas?
A Compra Que Ficou na Promessa
Tudo começou com uma necessidade urgente: salvar vidas. Em plena crise sanitária, hospitais do país inteiro enfrentavam falta de leitos de UTI, medicamentos e equipamentos essenciais. Os respiradores tornaram-se símbolos de esperança. E foi exatamente nesse contexto que o Consórcio Nordeste decidiu comprar 300 unidades de respiradores mecânicos.
Só que, ao invés de seguir um processo transparente e bem documentado, o contrato foi fechado com uma empresa sem histórico comprovado em exportação de equipamentos médicos, nem capacidade logística para entregar algo dessa magnitude.
Pior: o pagamento foi feito antecipadamente, sem garantias reais de recebimento. E os respiradores simplesmente não vieram. Nem os testes foram feitos. Nem os equipamentos passaram por avaliação técnica. Sumiram no limbo burocrático internacional.
O escândalo veio à tona com reportagens que mostraram como vários governadores nordestinos tinham participado da negociação, mas poucos eram tão visíveis quanto Rui Costa, que à época falava diretamente em nome do grupo. A polêmica tomou conta das redes sociais, e a população exigiu respostas.
Mas, ao invés de transparência, veio o silêncio institucional. Processos foram abertos, recursos jurídicos empilhados, e o caso acabou se arrastando por anos, enquanto o país assistia impotente.
TCU Lava as Mãos: Nenhuma Falha Grave Encontrada
Em 2025, após anos de investigações, o Tribunal de Contas da União (TCU) encerrou sua análise do caso. E o resultado pegou muitos de surpresa: nenhuma irregularidade grave foi encontrada envolvendo Rui Costa.
O TCU reconheceu que houve falhas técnicas no processo de compra, sim. Mas também concluiu que não houve má-fé ou dolo por parte do governador baiano. Isso significaria, em termos administrativos, o fim da linha de responsabilização contra ele.
No entanto, no campo penal, o caso continua. E isso é crucial. Porque, mesmo com o aval do tribunal de contas, o Ministério Público Federal e o STF podem decidir que há indícios suficientes para continuar investigando.
É aí que entra Flávio Dino. Atual ministro da Corte máxima, ele já ocupou o cargo de ministro da Justiça no governo Lula, e agora é o relator do inquérito. Um homem com conhecimento técnico, sim. Mas também alguém com ligação direta com o alvo da investigação.
O Retorno do Caso ao STF: Entre a Jurisdição e o Foro Político
O inquérito já teve várias idas e vindas. Primeiro, ele tramitava no STF por conta do foro privilegiado de Rui Costa, já que ele era governador estadual. Depois, com sua saída do cargo e entrada no Executivo, ele perdeu o direito ao foro especial.
Isso gerou debates jurídicos prolongados sobre qual instância deveria julgar o caso. O inquérito chegou a ser removido do Supremo, enviado para outra corte, mas retornou após questionamentos sobre a divisão de responsabilidade entre os envolvidos.
E, ironicamente, quem voltou a assumir o caso foi Flávio Dino, cuja trajetória política nos últimos anos é bem clara: sempre esteve alinhado ao PT e ao projeto lulista de poder.
Agora, ele decide se abre novas frentes de investigação, se ouve testemunhas, se solicita perícia adicional ou se fecha o caso com base nas conclusões do TCU.
Flávio Dino: O Relator que Conhece Bem o Alvo
A escolha de Flávio Dino como relator trouxe à tona um novo conflito de interesses. Ele e Rui Costa não só trabalharam juntos no primeiro escalão do governo Lula, como compartilharam cargos-chave e decisões estratégicas.
Dino foi ministro da Justiça até meados de 2024, quando deixou o cargo para assumir uma vaga no Supremo. E ali, agora como juiz, tem a chance de definir o futuro de quem antes foi seu colega de pasta.
Essa proximidade cria suspeitas. Se ele realmente vai conduzir o caso com isenção, ou se vai usar seu papel para encerrar discretamente um processo que pode comprometer políticos próximos ao PT, é o que todos querem saber.
Especialistas alertam que relatores com ligações prévias ao investigado devem se declarar impedidos. Mas, até agora, Dino não indicou que fará isso.
As Empresas Suspeitas e o Papel Obscuro dos Intermediários
Um dos pontos mais obscuros do caso é o perfil das empresas envolvidas. A fornecedora dos respiradores tinha sede em São Paulo, mas nenhum histórico de exportação de produtos hospitalares. Além disso, ela terceirizou parte da negociação para uma outra empresa, cujo dono está atualmente foragido no exterior.
Esse tipo de operação, segundo a Polícia Federal, é típico de esquemas de corrupção envolvendo órgãos públicos. Empresas fantasmas são usadas como fachada para receber verbas federais, sem qualquer obrigação real de entrega.
E o pior: não há rastros claros de onde foi parar o dinheiro pago pelos estados nordestinos. Investigações internacionais tentam localizar movimentações bancárias suspeitas, mas até agora nada concreto foi encontrado.
O Consórcio Nordeste, inclusive, admitiu que não fez verificações adequadas antes de fechar o negócio. E isso, por si só, já levanta sérias dúvidas sobre a conduta dos gestores envolvidos.
O Silêncio do Ministro e a Pressão da Imprensa
Apesar do renascimento do inquérito no STF, Rui Costa optou por manter o silêncio. Sua assessoria afirmou que não vai se manifestar enquanto o processo estiver em andamento, o que soa mais como estratégia de defesa do que como cooperação legítima com a apuração.
E isso não faz bem nenhum. Quanto mais tempo ele demora para falar, mais cresce a desconfiança sobre sua participação real nos fatos. Afinal, se ele não fez nada errado, por que não fala com a imprensa?
A Politicagem no Interior da Justiça
O caso dos respiradores ilustra bem isso. Ele não é apenas um processo jurídico. É uma disputa por narrativa. É quem controla a informação, quem define o que é crime e o que é erro técnico.
E é por isso que o STF age com lentidão em certos casos, e com velocidade em outros. O inquérito das fake news, por exemplo, já resultou em multas, bloqueios e prisões preventivas. Mas o caso dos respiradores, que envolve R$ 48 milhões, segue em câmera lenta.
Alguns chegam a especular: será que esse caso não foi arquivado propositalmente? Será que ele não voltou à tona por causa da pressão externa?
O Futuro do Caso: O Que Esperar do STF
Com Flávio Dino no comando do inquérito, duas coisas podem acontecer:
Ele decide seguir com as investigações, ouvir testemunhas, mandar requisições internacionais e tentar identificar para onde foi o dinheiro dos respiradores.
Ele usa sua posição para arquivar discretamente o caso, sob a justificativa de que “não há provas suficientes” ou “não houve intenção de lesar o Estado”.
A primeira opção é improvável. A segunda, triste. Mas realista.
Afinal, o STF tem demonstrado mais interesse em perseguir opositores do que em resolver casos reais de corrupção. E, se for para investigar membros do PT, a tendência é de que o caso suma no meio do caminho.
O Prejuízo Real: Quando a Má Gestão Vira Crime
Por trás do caso dos respiradores, há uma verdade inegável: R$ 48 milhões desapareceram sem explicação. E ninguém sabe pra onde. Isso significa perdas reais para os cofres estaduais, especialmente dos estados do Nordeste, que já enfrentam déficits crônicos em saúde e educação.
Além disso, a falta de equipamentos médicos na pandemia afetou diretamente hospitais públicos, que ficaram sem infraestrutura para atender pacientes graves. E isso não é só dinheiro perdido. É vida perdida também.
E, se for provado que esse dinheiro foi usado de forma irresponsável ou com conivência de autoridades, o impacto político será gigante. E Rui Costa, mesmo como ministro da Casa Civil, não estará imune.
A Resistência do STF em Entregar Respostas Reais
Mesmo diante de tantas evidências, o Supremo insiste em trabalhar em ritmo lento. Há casos que levam meses para serem julgados. Outros, como o do Bolsonaro, são acelerados com rapidez incomum.
Especialistas já denunciam isso. O STF age com diferencial de velocidade e intensidade conforme o alvo. Se é da direita, tem que provar rápido. Se é da esquerda, a investigação pode durar décadas.
E isso não só viola o princípio da igualdade perante a lei, como também põe em xeque a credibilidade do Judiciário como árbitro neutro.
O Brasil Assistindo a Uma Justiça que Decide com Viés
O caso dos respiradores é só mais uma peça nesse quebra-cabeça complexo que é a relação entre o governo Lula, o STF e a imprensa tradicional. É mais uma prova de que certos casos são tratados com cuidado extremo, enquanto outros viram alvos prioritários.
Rui Costa pode ser inocente. Pode ter cometido apenas erros técnicos. Mas enquanto o STF age com duas medidas, e enquanto ministros como Moraes e Barroso fogem de investigações internacionais, o povo brasileiro segue sofrendo.
Com prejuízos bilionários, investigações truncadas e promessas de transparência que não se cumprem, o que fica claro é que a máquina estatal está doente. E, se não houver mudança radical, ela vai continuar prejudicando o povo brasileiro por muito tempo.

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