No domingo (1º), durante a convenção nacional do PSB, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) fez uma declaração que ecoou como mais um capítulo na guerra diplomática entre Brasil e Estados Unidos. Ele saiu em defesa direta do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), diante da ameaça de sanções por parte do governo americano.
“Olha a história dos Estados Unidos querendo negar alguma coisa e criticar a Justiça brasileira. Nunca critiquei a Justiça deles. Eles fazem tanta barbaridade e eu nunca critiquei. Eles fazem tanta guerra, matam tanta gente.”
Essas palavras não só reforçaram o apoio incondicional ao ministro careca, mas também evidenciaram o tom de confronto adotado pelo Executivo federal frente às pressões externas sobre as práticas judiciais no Brasil — especialmente aquelas envolvendo ordens monocráticas, bloqueios de contas, cassação de passaportes e investigações contra vozes dissidentes no exterior.
O Contexto das Sanções: A Lei Magnitsky e a Pressão dos EUA
As tensões entre os países se intensificaram após declarações do secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, que afirmou recentemente ter "grande possibilidade" de impor restritivos de visto a autoridades estrangeiras acusadas de serem cúmplices em censura digital e perseguição política.
A Lei Global Magnitsky, mecanismo usado pelos EUA para punir indivíduos envolvidos em graves violações de direitos humanos ou corrupção sistêmica, tem sido apontada como o instrumento legal mais provável para atingir Moraes. Embora essa lei seja aplicada apenas no território americano, seu impacto é global, pois empresas e bancos internacionais com operações nos EUA são obrigados a cumprir as medidas sob risco de represálias.
Especialistas já alertaram: mesmo sem validade jurídica no Brasil, essas sanções podem afetar diretamente a vida financeira e profissional de Moraes, especialmente no que diz respeito a viagens, transações internacionais e até mesmo uso de plataformas digitais vinculadas a instituições americanas.
Mas, longe de reconhecer esses riscos, Lula optou por jogar a narrativa para fora do campo jurídico e colocá-la dentro do discurso anti-imperialista.
A Carta do Departamento de Estado Americano e a Investida Contra o STF
Na última semana, o Departamento de Justiça dos EUA enviou uma carta oficial ao Supremo Tribunal Federal (STF) e ao Ministério da Justiça brasileiro, criticando ordens emitidas por Moraes que exigiram acesso a dados de Alan dos Santos, jornalista bolsonarista exilado nos Estados Unidos.
A principal decisão questionada foi a determinação do ministro de que a plataforma Rumble bloqueasse o perfil do jornalista, algo que já gerou uma ação judicial movida pela empresa nos EUA, exigindo indenização por danos morais e materiais causados por ordens ilegais.
Enquanto isso, Lula minimiza o caso e rotula a pressão americana como ingerência injusta:
“Os Estados Unidos querem processar o Alexandre de Moraes porque ele está querendo prender um cara brasileiro que está lá nos EUA fazendo coisa contra o Brasil o dia inteiro.”
Só que há um detalhe: Alan dos Santos tem diploma de jornalismo e sua atividade é protegida por liberdade de expressão internacional. Além disso, ele vive legalmente nos EUA, onde tem o direito de falar sobre política brasileira sem medo de prisão ou retaliação do seu país de origem.
A Estratégia do Governo: Ignorar os Riscos Reais das Sanções
Apesar das críticas dos especialistas, o governo Lula segue insistindo que a Lei Magnitsky não pode ser aplicada no Brasil, e que eventuais sanções aos ministros do STF não têm valor jurídico real.
O chanceler Mauro Vieira já havia defendido essa visão dias antes, na Comissão de Relações Exteriores da Câmara, afirmando que a medida é restrita ao território norte-americano e não gera obrigações legais no Brasil.
Mas essa visão é contestada por juristas independentes. O advogado Luiz Augusto Módolo, doutor em Direito Internacional, explicou:
“É evidente que a Lei Magnitsky não se aplica diretamente no Brasil, mas o simples fato de vigorar nos EUA já confere a ela uma força considerável.”
Isso significa que bancos brasileiros, empresas de tecnologia e até mesmo plataformas de pagamento poderiam ser proibidas de manter relações comerciais ou financeiras com Moraes, sob risco de perder acesso ao sistema bancário global.
E, ironicamente, esse é o mesmo argumento usado por Lula para justificar suas próprias investidas políticas: “os EUA fazem isso, então eu posso fazer também”.
O Papel do PT na Judicialização Política
A defesa explícita de Lula por Moraes vem num momento delicado para o partido. Enquanto o escândalo do INSS cresce e o prejuízo bilionário da Petrobras vira tema constante de debates econômicos, o STF se torna o refúgio final da narrativa lulista de poder.
E Moraes, que já multou Viviane Moura, ex-representante do X no Brasil, e agora insiste em exigir dados de usuários americanos, se torna peça central dessa lógica.
Especialistas alertam: esse tipo de postura não fortalece o Judiciário brasileiro — ela o politiza ainda mais, e coloca o país numa posição de confronto desnecessário com uma das maiores potências do mundo.
O Que Isso Significa Para o Futuro das Relações Bilaterais
O cenário atual é complexo. Enquanto o Brasil insiste em tratar Moraes como herói da democracia, o mundo inteiro começa a vê-lo como símbolo da judicialização política e da perseguição a vozes dissidentes.
Especialistas já apontam que essa escalada pode levar à revisão de acordos comerciais, redução de investimentos estrangeiros e até mesmo aumento de tarifas contra produtos brasileiros, especialmente se Moraes continuar perseguindo empresas com sede nos EUA.
E, ironicamente, quanto mais o governo brasileiro tenta blindar Moraes, mais ele expõe o país a represálias. Afinal, quando você usa o Judiciário como arma política, o mundo inteiro começa a te ver com desconfiança.
A Guerra de Narrativas nas Redes Sociais e a Preocupação do PT
Durante o discurso, Lula também comentou sobre o papel das redes sociais na disputa ideológica, e admitiu que a direita tem conseguido maior engajamento e alcance nas plataformas digitais.
Ele chamou a militância petista para reforçar a presença digital do partido, num esforço de combater o crescimento de figuras como Tarcísio de Freitas e Michelle Bolsonaro, que têm ganho destaque em pesquisas eleitorais.
“Precisamos estar nas redes sociais, senão vamos perder espaço para quem só fala mal do país”, disse Lula, sem reconhecer que muitas dessas críticas surgem justamente de brasileiros que vivem no exterior e são alvo de investigações do próprio STF".
A defesa de Alexandre de Moraes por Lula não é só uma questão de solidariedade política. É uma tentativa de isolar o STF como último bastião do projeto lulista de poder, mesmo com indícios claros de que o tribunal está cada vez mais politizado.
E, quanto mais o presidente tenta pintar Moraes como vítima de uma conspiração internacional, mais ele mostra que não entende o que realmente assusta o mundo: ministros que usam a toga como arma, juízes que perseguem vozes dissidentes e governos que transformam justiça em vingança.
Se nada mudar, o Brasil seguirá dividido, sem rumo e sem esperança de mudança real.

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