O "Esforço Civilizatório" do STF: Quem Precisamente Precisa Ser Civilizado?



Durante anos, o Supremo Tribunal Federal se posicionou como o guardião da democracia brasileira. Mas agora, em uma espécie de turnê internacional, seus ministros parecem ter abraçado uma missão ainda mais audaciosa: civilizar os brasileiros. Em discursos recentes nos Estados Unidos, figuras como Luís Roberto Barroso, Alexandre de Moraes e Gilmar Mendes ecoaram uma ideia que parece, ao mesmo tempo, elitista, provocativa e profundamente preocupante: o Brasil está "descivilizado", e cabe ao STF guiá-lo de volta à civilização.


Mas o que exatamente significa isso? Quem decide o que é civilizado? E mais importante: por que essa narrativa se tornou tão conveniente para as elites do poder?


Um Novo Tipo de Missão: O STF Como "Missionário" da Civilização

Imaginemos por um momento que você está andando pelas ruas de Washington D.C. e encontra, em uma conferência de alto nível, um ministro do STF brasileiro discursando sobre o atraso civilizatório do Brasil. Isso não é ficção. É real.


Segundo Barroso, o Brasil viveu um "retrocesso civilizatório" — e esse retrocesso se manifestou, entre outras coisas, na eleição de Jair Bolsonaro. Ou seja, o ato democrático de eleger um presidente virou sinônimo de ignorância, de barbárie. Mas será mesmo que o problema está no voto — ou estaria, talvez, em quem não consegue aceitar o voto alheio?


Essa narrativa de que o povo precisa ser civilizado é antiga. Ela aparece sempre que uma elite — seja ela aristocrática, política ou intelectual — se sente desconfortável com os caminhos que a maioria escolheu. É uma forma disfarçada (e elegante) de dizer: “Você não sabe o que está fazendo. Deixe que eu decido por você.”


A Pergunta Incômoda: Quem São os "Bárbaros"?

Vamos direto ao ponto: quando Barroso ou Gilmar Mendes falam em “esforço civilizatório”, eles estão dizendo, nas entrelinhas, que o brasileiro comum — especialmente aquele que vota à direita — é incivilizado.


Você já deve ter ouvido, ou até pensado, algo parecido: “Como é que alguém vota no Lula?” Ou, do outro lado, “Como alguém pode votar no Bolsonaro?” A verdade é que esse pensamento parte de uma visão arrogante de que apenas a “minha escolha” é racional, moral e legítima. Todas as outras são erro ou ignorância.


Mas será que quem vota diferente de você é, automaticamente, menos civilizado? Ou será que estamos lidando com visões de mundo legítimas, ainda que profundamente distintas?


A resposta a essa pergunta define o tom da democracia. E neste momento, parece que o STF e parte da elite política brasileira adotaram a resposta mais perigosa: a de que o eleitor comum é o problema — e precisa ser reeducado.


Civilizar: O Que Isso Realmente Significa?

Para compreender a gravidade do discurso do STF, precisamos revisitar o conceito de "civilizar". O termo foi profundamente estudado por Norbert Elias, um sociólogo que analisou como, ao longo da história, os padrões de comportamento humano mudaram — do uso da força bruta à valorização da negociação, da polidez e do respeito mútuo.


Elias não via a civilização como um produto da elite, mas como um processo natural da sociedade. Ele observou como os manuais de etiqueta e boas maneiras, desde a Roma Antiga até a Europa moderna, revelavam uma evolução nos costumes. Não era uma evolução imposta de cima para baixo, mas um ajuste contínuo, feito por toda a sociedade, em busca de convivência menos violenta e mais harmoniosa.


Em outras palavras, civilizar-se não é algo que pode ser forçado — especialmente por um punhado de magistrados vestidos de toga. É um caminho construído coletivamente, por todos, inclusive por aqueles que o STF agora parece querer educar à força.


A Retórica do Preconceito: "Eles São Macacos"

É impossível ignorar a carga simbólica e ofensiva por trás de declarações como a de José de Souza, colunista do UOL, que comparou os apoiadores de Bolsonaro a "macacos". Isso não é apenas uma ofensa — é um reflexo de como parte da elite se enxerga como superior, mais ilustrada, mais culta e mais digna de definir os rumos da sociedade.


Mas o que há de mais preocupante é como essa linguagem desumanizante é legitimada por instituições que deveriam ser imparciais. Ao fazer eco dessas ideias em conferências internacionais, o STF se afasta de seu papel constitucional e se aproxima de uma perigosa arrogância ideológica.


É legítimo um juiz da Suprema Corte sugerir que metade do país é ignorante? É saudável para a democracia que se trate uma parcela significativa da população como selvagem, inculta e incapaz de participar da vida política?


Quando a "Civilização" Vira Ferramenta de Controle

Ao alegar que o povo precisa ser civilizado, o STF inverte os papéis da democracia. Em vez de servir ao povo, passa a querer moldá-lo. Em vez de proteger a liberdade de expressão, começa a reprimir opiniões que não se encaixam em seu projeto de país.


E como isso é feito? Simples: através de alianças com as big techs, da perseguição a opositores, da censura seletiva e da manipulação do discurso público. Tudo isso justificado, é claro, pelo "bem maior" — a tal da civilização.


Mas a quem essa civilização serve? A quem interessa um Brasil onde só um tipo de pensamento é permitido? Onde discordar de ministros se torna um risco à liberdade?


A Internet Não Civiliza — Ela Expõe

Barroso e seus colegas culpam as redes sociais pelo "atraso civilizatório". Dizem que elas tornaram o debate público mais rude, mais tosco, menos civilizado. Mas será mesmo?


Na verdade, as redes sociais apenas deram voz ao que sempre esteve lá. Elas não criaram o povo — elas revelaram o povo. Pela primeira vez, os cidadãos puderam responder, criticar, debater, rir e resistir.


E esse é o verdadeiro incômodo da elite: não é que o povo seja tosco — é que o povo agora fala. E quando fala, expõe os vícios, a arrogância e as contradições daqueles que se achavam inalcançáveis.


A Civilização Como Caminho, Não Como Imposição

Ao longo da história, a civilização avançou sempre que as pessoas se comunicaram mais, ouviram mais, respeitaram mais. Nunca quando foram silenciadas ou reeducadas à força.


O STF pode até se achar portador da luz, mas sua missão não é ensinar ninguém a votar. É garantir que todos — absolutamente todos — possam votar livremente, falar livremente, viver livremente.


Civilizar não é calar. Não é punir quem discorda. Não é taxar opositores de "bárbaros". Civilizar é dialogar, é escutar, é aceitar que o Brasil é feito de muitos — inclusive daqueles com quem você não concorda.


Para Onde Estamos Indo?

A pergunta que fica é: o que acontece com uma democracia quando quem deveria protegê-la passa a temer — e combater — a vontade do povo?


Talvez estejamos vivendo não um retrocesso civilizatório, mas um impasse moral. Um momento em que as instituições terão que escolher: governar com o povo ou governar apesar do povo.


A história mostra que civilizações não morrem por ataques externos — elas apodrecem por dentro, quando suas elites perdem o senso de humildade, de serviço, de escuta.


Se os ministros do STF querem realmente civilizar o Brasil, que comecem pelo exemplo. Que mostrem que a civilização não é uma toga — é a capacidade de ouvir sem censurar, de julgar sem perseguir, de servir sem se achar melhor.

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