Como um gesto mal calculado de Barroso escancarou ainda mais a crise institucional do Supremo Tribunal Federal e fez ministros se perguntarem: até onde estamos dispostos a ir para tentar salvar nossa imagem?
Imagine um órgão máximo de justiça de qualquer país. Um tribunal cuja função primordial é interpretar a Constituição e garantir os direitos fundamentais dos cidadãos. Agora imagine esse mesmo tribunal se vendo na necessidade de responder... uma revista.
Parece estranho? Pois foi exatamente isso que aconteceu no Brasil. E o protagonista da história é o atual presidente do STF, ministro Luís Roberto Barroso.
Tudo começou com uma matéria da The Economist, uma publicação britânica que ousou fazer críticas à atuação do Supremo Tribunal Federal. A revista afirmou que ministros da corte brasileira detêm poder excessivo, mencionou a notoriedade de Alexandre de Moraes e pontuou que, em nenhum outro país, um juiz teria tanto protagonismo quanto no Brasil.
Diante disso, Barroso decidiu responder. Com uma carta.
Mas será que essa resposta ajudou a melhorar a imagem da Corte? Ou será que expôs, ainda mais, as feridas internas e a fragilidade institucional que muitos já enxergam há tempos?
O Orgulho Ferido de uma Corte Suprema
Desde quando uma Corte Suprema precisa prestar contas a uma revista internacional?
Essa foi a pergunta que muitos juristas, jornalistas e até mesmo ministros do próprio STF começaram a se fazer após a carta de Barroso. A crítica não era apenas sobre o conteúdo da resposta, mas sobre o gesto em si. Uma submissão simbólica, um sinal de que o STF se incomodou. E talvez, no fundo, que se sentiu atingido.
A verdade é que não é papel do Judiciário entrar em debates midiáticos. O silêncio institucional muitas vezes é mais eloquente do que qualquer réplica mal escrita. E no caso de Barroso, não faltaram erros na forma e no conteúdo da resposta.
A Carta Maldita: Quem Realmente Escreveu?
O texto assinado por Barroso era tão desastrado, tão carregado de contradições, que muitos começaram a questionar sua autoria. Estaria Alexandre de Moraes por trás da redação? Teria sido uma encomenda, um pedido, ou talvez até uma imposição?
A desconfiança ganhou força porque o conteúdo parecia ter sido moldado para justificar justamente os atos mais controversos de Moraes — como os pedidos de extradição de figuras ligadas à direita, bloqueios de contas em redes sociais e ações de censura que atropelaram o devido processo legal.
Seja como for, o que mais chocou ministros e observadores foi o fato de Barroso não ter consultado ninguém. Nem Gilmar Mendes, nem Flávio Dino, nem qualquer outro colega de toga.
O gesto solitário causou desconforto generalizado dentro do STF. Alguns ministros viram a carta como um ato de vaidade, outros como um erro político grave. Mas todos concordaram numa coisa: a resposta só piorou as coisas.
O STF Contra o Espelho: Quando a Crítica Vem de Fora
É compreensível que o Supremo esteja desconfortável com sua imagem perante a opinião pública. Pesquisas mostram uma crescente desconfiança popular no Judiciário brasileiro. Mas o desconforto com a The Economist revela algo mais profundo: a dificuldade do STF em lidar com a crítica externa.
A matéria britânica não foi escrita por bolsonaristas. Não foi publicada num blog obscuro ou em alguma página partidária. Foi um veículo tradicional, com credibilidade internacional, que apontou o que muitos brasileiros já sentem.
E a reação foi típica de quem não está acostumado a ser contestado.
Os Seis Erros de Barroso: Uma Resposta que Não Convenceu
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"O X (Twitter) foi proibido por não ter representante legal no Brasil."
Mentira. A legislação brasileira não exige isso. E, mais grave, o X teve sim problemas porque seus representantes estavam sendo ameaçados por decisões judiciais autoritárias. Censura disfarçada de legalidade. -
"Todas as decisões de remoção de conteúdo foram devidamente fundamentadas."
Outro erro. Diversas dessas decisões foram secretas, sem transparência e sem acesso aos próprios advogados dos envolvidos. Um Judiciário que age nas sombras pode alegar legalidade, mas perde legitimidade. -
"A Corte nunca disse que derrotou Bolsonaro."
Barroso, pessoalmente, declarou: “Nós derrotamos o bolsonarismo.” E mais tarde voltou atrás, alegando ter “exagerado”. Mas a frase está registrada. E revela um viés político explícito de quem deveria ser imparcial. -
"O STF é bem visto pelos brasileiros."
Falso. Diversas pesquisas apontam justamente o contrário. Há uma percepção crescente de que o STF atua como um poder político e não como um tribunal de Justiça. -
"A narrativa da The Economist é a mesma de quem tentou o golpe."
Grave. Se um ministro do STF já pressupõe que houve golpe e que quem critica a Corte compactua com isso, como ele pode julgar com isenção? -
"Não há perseguição política."
Tribunais internacionais discordam. Nenhuma ordem de extradição de Moraes foi acatada — nem pelos EUA, nem pela Espanha, nem pela França. E isso diz muito.
Quando os Tribunais Estrangeiros Dizem "Não"
Talvez o ponto mais constrangedor de toda essa história seja o fato de que decisões de Alexandre de Moraes, quando levadas ao escrutínio de tribunais estrangeiros, são sistematicamente rejeitadas.
Não estamos falando de países bolsonaristas — como se houvesse algum. Estamos falando de Espanha, Estados Unidos, França. Países com governos de esquerda ou centro-esquerda, muitos deles aliados políticos de Lula.
Mesmo assim, quando recebem os pedidos de Moraes, esses tribunais olham, analisam... e recusam. Por quê?
Porque enxergam perseguição política. Porque não veem crime. Porque consideram as acusações absurdas.
No caso de Alain dos Santos, por exemplo, a acusação de “planejamento de golpe” se baseava em... posts no Twitter. Isso não é crime, é opinião.
O mesmo com Oswaldo Eustáquio. O que havia contra ele? Críticas a ministros do STF. Ironias. Frases ácidas. Nada que justificasse prisão ou extradição.
E Agora? Para Onde Vai o STF?
O episódio da carta de Barroso revela algo muito maior do que um erro de comunicação.
Revela a profunda crise de identidade e de legitimidade do STF. Um tribunal que já não se contenta em julgar — quer também governar. Que já não se limita a aplicar a Constituição — quer moldar o debate público, controlar redes sociais, calar vozes dissonantes.
Mas ao tentar fazer tudo isso, o STF acabou se tornando refém de si mesmo. Refém das próprias contradições. Refém da vaidade de alguns ministros. Refém do medo da crítica.
E essa carta — que deveria ser uma defesa — acabou sendo uma confissão. Uma confissão de fraqueza, de insegurança, de isolamento institucional.
O Que Podemos Aprender com Isso?
Esse episódio levanta perguntas que todos nós devemos fazer:
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Um tribunal pode ser respeitado se busca validação na mídia internacional?
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Como confiar na imparcialidade de juízes que demonstram publicamente suas preferências políticas?
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Por que os tribunais estrangeiros veem abuso onde aqui se vê “legalidade”?
O Judiciário deve ser o último bastião da racionalidade e da justiça. Quando ele passa a agir movido por ego, vaidade ou ideologia, ele perde a sua razão de existir.
Conclusão: O STF Precisa se Reencontrar
Barroso errou ao responder à The Economist. Mas mais do que isso, o STF errou ao permitir que esse tipo de atitude se tornasse comum.
A carta foi só um sintoma. O problema é muito mais profundo.
A Corte precisa reaprender o valor do silêncio. Do recuo. Do autocontrole. Precisa lembrar que autoridade se constrói com coerência, não com cartas arrogantes.
E precisa, acima de tudo, reencontrar a confiança do povo brasileiro. Porque sem ela, nenhum poder é legítimo.
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