Era uma tarde comum no Brasil político, até que uma notícia rompeu o silêncio com a força de um trovão: Fernando Collor de Mello havia sido preso. Não que Collor fosse exatamente um símbolo de integridade intocável — poucos lamentaram sua queda —, mas o momento e a maneira como tudo aconteceu levantaram sobrancelhas, perguntas e, principalmente, desconfianças.
Por que agora?
O que estava por trás dessa prisão súbita?
Seria justiça ou mais uma jogada no xadrez político brasileiro?
Vamos caminhar juntos por essa história.
Uma prisão inesperada
Na quarta-feira, Alexandre de Moraes, ministro do Supremo Tribunal Federal, recusou todos os recursos do ex-presidente Collor e, de forma monocrática — ou seja, sem levar a decisão ao plenário —, decretou sua prisão.
Sim, Fernando Collor já carregava nas costas uma condenação a 8 anos de prisão por acusações surgidas da Lava Jato. Mas o processo ainda estava em fase de recursos. Normalmente, haveria espaço para apelações, debates, análises.
Por que a pressa agora?
Collor estava sem mandato desde 2022, após perder a eleição para o governo de Alagoas. A expectativa era de que, sem cargo público, seu caso descesse para a justiça comum. Mas, em tempos recentes, o STF redefiniu suas próprias regras: praticamente tudo continuaria sob sua alçada, salvo se eles decidissem o contrário.
Assim, de maneira repentina, sem consulta ampla, sem aviso, Collor foi despachado para a prisão.
Foi justiça?
Ou foi um movimento político muito bem calculado?
O escândalo do INSS e a cortina de fumaça
À primeira vista, muitos analistas apontaram um motivo simples: a necessidade de abafar o escândalo do INSS.
A corrupção envolvendo a autarquia havia começado a arranhar feio a imagem de Lula, colocando em risco sua governabilidade. Um governo enfraquecido ameaça a estabilidade política necessária para negociar projetos espinhosos — como a controversa Lei da Anistia.
Mas seria apenas isso?
Ao mergulhar mais fundo nas articulações de Brasília, surgem outras possibilidades, ainda mais inquietantes.
Hugo Motta, o enterro da Anistia e a recompensa política
Enquanto o caso Collor explodia nas manchetes, outra história fervia nos bastidores: a articulação de Hugo Motta, deputado e aliado de Arthur Lira, que praticamente enterrou o projeto da Anistia.
Hugo Motta segurou o avanço da proposta que pretendia anistiar envolvidos nos atos de 8 de janeiro. Um movimento que contrariou setores petistas, mas também desarmou uma bomba para o governo e para muitos políticos do centrão.
E qual a conexão com Collor?
Simples. Collor é — ou melhor, era — um dos principais aliados de Renan Calheiros em Alagoas. E Renan é adversário ferrenho de Arthur Lira.
Prender Collor, portanto, enfraquecia Renan. E fortalecia Lira e, por tabela, Hugo Motta.
Seria a prisão de Collor um presente para Hugo Motta?
Uma moeda de troca para enterrar de vez a Anistia?
O cenário começa a ganhar forma.
Política em Alagoas: uma guerra fria à parte
Para entender ainda melhor esse tabuleiro, precisamos olhar para Alagoas.
Fernando Collor e Renan Calheiros sempre estiveram no mesmo campo político no estado. Arthur Lira, por outro lado, se consolidou como oposição.
Em 2022, tentando surfar a onda bolsonarista, Collor buscou se aproximar do eleitorado de direita, tradicionalmente alinhado a Lira. Uma ameaça política direta.
Assim, Collor se tornava duplamente incômodo: um aliado de Renan e, ao mesmo tempo, um concorrente pelo público bolsonarista.
Eliminar Collor do jogo político era, para Lira e seus aliados, uma jogada de mestre. E Alexandre de Moraes entregou essa jogada.
Coincidência?
Ou o mais recente capítulo da velha política de “toma lá, dá cá”?
O acordo que poderia salvar Débora e muitos outros
Enquanto isso, nos corredores do STF, outra movimentação intrigante chamava a atenção: o ministro Luiz Fux reduziu a pena da ativista Débora — presa por envolvimento nos atos de 8 de janeiro — para apenas um ano e meio.
Esse gesto não era apenas sobre Débora. Sinalizava a intenção de reduzir as penas de dezenas, talvez centenas de acusados.
Um grande acordo estaria em curso?
Um acerto que envolveria o STF, Lula, Arthur Lira e Hugo Motta? Diminuindo penas, aliviando tensões políticas e consolidando a governabilidade?
Se sim, a prisão de Collor seria apenas uma peça no dominó, necessária para selar o pacto.
E mais: essa redução de penas mina a estratégia de Alexandre de Moraes de tentar enquadrar Jair Bolsonaro como “mentor” dos atos de 8 de janeiro. Afinal, como justificar um ataque pesado a Bolsonaro se os demais réus recebem sentenças simbólicas?
Seria essa uma derrota disfarçada para Moraes?
A contradição gritante: Collor preso, Lula solto
Talvez o ponto mais gritante — e que gerou revolta em muitos brasileiros — foi a constatação de que Collor foi condenado por corrupção praticada durante os governos Lula e Dilma.
Ou seja: segundo as acusações, o dinheiro sujo teria vindo diretamente de gestões petistas.
E ainda assim, Lula permanece livre, leve e solto — ocupando a presidência da República.
Como isso é possível?
Que tipo de justiça seletiva é essa?
Alguns tentaram justificar: o caso de Collor não teria relação direta com a Odebrecht ou com a Lava Jato de Curitiba, que foram os focos principais das anulações que beneficiaram Lula.
Mas essa explicação não se sustenta.
O ex-juiz Sérgio Moro, que conduziu a Lava Jato, rapidamente lembrou que os comprovantes de propina para Collor foram encontrados em investigações autorizadas por ele mesmo, ainda em Curitiba. A origem das provas, portanto, é a mesma.
Se o que valeu para Lula — a anulação das provas por suposta parcialidade de Moro — fosse seguido com rigor, Collor também deveria ter sido beneficiado.
Mas não foi.
Por quê?
Por que Lula se salva e Collor cai?
A resposta parece menos jurídica e mais política.
Reflexões finais
A prisão de Fernando Collor pode, sim, ser justa — ninguém aqui está defendendo o contrário.
Collor tem uma longa história de acusações e escândalos.
Mas a questão não é sobre culpa ou inocência isoladamente.
A verdadeira pergunta que devemos fazer é:
Por que alguns corruptos pagam o preço e outros não?
Por que a justiça é aplicada seletivamente, ao sabor dos interesses políticos?
E até quando aceitaremos isso como normal?
Essa prisão tem o cheiro de justiça, mas o sabor amargo da manipulação política.
No final, o grande drama do Brasil não é que Collor tenha sido preso.
O drama é que tantos outros, com crimes tão ou mais graves, continuam rindo na nossa cara.
E nós, o povo, seguimos pagando o preço.
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