A defesa do ex-presidente Jair Bolsonaro continua tentando mostrar que há falhas na versão dada pelo seu antigo ajudante de ordens, Mauro Cid , sobre a suposta tentativa de golpe após as eleições de 2022. Cid prestou depoimento por quase quatro horas no Supremo Tribunal Federal, em uma das últimas etapas do processo em que os réus têm chance de se defender pessoalmente.
O advogado de Bolsonaro, Celso Vilardi , disse que é fácil falar só o que interessa quando se tem “memória seletiva”. Segundo ele, Cid mudou várias vezes sua história desde o primeiro depoimento, já são sete no total e muitas coisas não batem:
“Cid diz ‘lembro disso’, mas depois, quando perguntado sobre algo contraditório, responde ‘não lembro’. Isso acontece toda hora. A cada depoimento, ele conta uma coisa diferente.”
Durante o interrogatório, Vilardi apresentou um áudio gravado por Cid no dia 8 de novembro de 2022, poucos dias após a derrota de Bolsonaro nas urnas. Nele, o então ajudante de ordens afirma que Bolsonaro não queria interferir nos relatórios oficiais sobre as eleições nem pressionar ninguém a tomar medidas radicais.
No áudio, Cid diz que Bolsonaro comentou que o governo Lula não iria durar muito tempo , e que os servidores públicos acabariam se revoltando contra o novo presidente. Ele também afirma que, durante uma conversa com o general Eduardo Pazuello (ex-ministro da Saúde), Bolsonaro não mostrou interesse em usar o artigo 142 da Constituição, que permite intervenções das Forças Armadas.
“Bolsonaro deixou o general Paulo Sérgio tranquilo quanto ao prazo do relatório e deu a entender que tudo bem, o que estivesse escrito ali estava bom. Também não quis mexer no relatório do Valdemar [ministro da Defesa], deixou correr solto”, disse Cid no áudio, segundo reproduziu Vilardi.
O ajudante afirmou ainda que alguns empresários estavam pressionando o presidente para que ele tomasse uma atitude mais forte, mas que Bolsonaro descartou a ideia e até alertou que esses empresários poderiam sofrer com o governo Lula.
Vilardi questionou Cid sobre essa reunião com empresários, lembrando que não há registros de entrada dessas pessoas no Palácio da Alvorada, onde Bolsonaro estava recluso na época. O ministro Alexandre de Moraes, responsável pelo caso, também perguntou se Cid lembrava dessa conversa. O ex-ajudante respondeu que não se lembrava de ter dito aquilo ou a quem havia enviado a mensagem.
“Talvez tenha sido enviada ao general Freire Gomes, que era meu contato direto. Mas eram conversas que eu tinha nesse período, que tinham altos e baixos”, respondeu Cid, sem confirmar claramente os fatos.
O que diz a acusação?
A Procuradoria-Geral da República (PGR) afirma que, após perder a eleição, Bolsonaro se reuniu diversas vezes com generais e comandantes das Forças Armadas para discutir a possibilidade de decretar estado de sítio ou estado de defesa, como forma de contestar o resultado eleitoral.
Já o áudio apresentado pela defesa mostra que, na prática, Bolsonaro teria agido de forma oposta, deixando os relatórios seguirem normalmente, sem interferência — inclusive aqueles que não encontraram qualquer fraude nas urnas eletrônicas.
Antes desse depoimento, Cid já havia dado outras versões em que acusava Bolsonaro de pressionar o Ministério da Defesa para que os relatórios indicassem suspeitas de fraude eleitoral. Agora, porém, seu próprio áudio parece sugerir o contrário.
Cid muda versão sobre relatório da Defesa e nega plano de golpe
Durante o depoimento Mauro Cid voltou a falar sobre o suposto envolvimento do ex-presidente em planos de golpe após a derrota eleitoral de 2022.
Cid afirmou que houve pressão de Bolsonaro para mudar o relatório do Ministério da Defesa, que analisava possíveis fraudes nas eleições. Segundo ele, o documento inicial era técnico e não apontava irregularidades, mas acabou sendo alterado para ficar num “meio-termo” ou seja, nem totalmente técnico, nem politizado demais.
“Não sei se foi por ligação, conversa ou reunião, mas havia pressão. O relatório original era mais técnico, depois virou algo mais político. No fim, chegaram a um meio termo”, disse Cid durante o interrogatório.
O advogado de Bolsonaro, Celso Vilardi, questionou essa versão e destacou que, em um áudio divulgado anteriormente, o próprio Cid dizia que Bolsonaro não queria interferir nos relatórios oficiais nem forçar nenhuma mudança. Isso contradiz parte das declarações feitas agora.
Vilardi perguntou ironicamente ao ministro Alexandre de Moraes se queria incluir novas acusações contra Eduardo Pazuello e outros empresários, com base no áudio apresentado. Ele respondeu que não viu evidências de que essas pessoas estivessem envolvidas em atos ilegais.
Dúvidas sobre encontro com militares
Outra contradição apontada pela defesa diz respeito a uma reunião em novembro de 2022, realizada no prédio onde morava o general Walter Braga Netto, na época candidato a vice-presidente de Bolsonaro.
A Procuradoria-Geral da República afirma que nesse encontro teria sido discutido um plano chamado "Punhal Verde e Amarelo", que previa até a morte do ministro Alexandre de Moraes. Cid participou dessa reunião e admitiu isso, mas negou que tenha havido qualquer combinação de ação violenta ou ilegal.
“Eu fiquei lá uns 15 minutos. Os militares reclamavam do processo eleitoral e falavam sobre o que poderia ser feito. Mas não teve nada de radical, nenhum planejamento sério de golpe”, afirmou Cid.
Ele também negou que tenha havido entrega de dinheiro dentro de uma caixa de vinho, como relatado antes, e disse que não sabia, na época, qual seria o real objetivo do documento "Copa 2022", encontrado com outro réu no processo. Cid alegou que achou que era apenas para pagar despesas de militares que participavam de protestos.
Questionado sobre o plano Punhal Verde e Amarelo, Cid disse que só soube do nome depois que o documento foi apreendido com outro oficial. “Na hora eu pensei que fosse coisa sem importância”, declarou.
Cid nega que tenha sido combinado plano para matar Moraes
Ao ser perguntado pelo ministro Alexandre de Moraes se houve alguma ideia concreta de prejudicar o tribunal ou o próprio ministro, Cid respondeu:
“Ninguém falou em ‘vamos acabar com ele’. As pessoas criticavam muito o senhor, usavam memes e palavras feias, tipo 'aquele desgraçado'. Era mais ou menos isso.”
Segundo Cid, as conversas eram do tipo “de bar”, sem organização ou intenção real de praticar qualquer crime.
Vilardi, porém, destacou que há uma grande diferença entre o que Cid disse antes e o que falou agora . O advogado lembrou que, em depoimentos anteriores, Cid sugeriu que o plano de prisão dos ministros já estava pronto e que Bolsonaro teria recebido uma minuta com esse conteúdo.
“Bolsonaro viu o documento e retirou a maior parte das prisões. Só o senhor [Moraes] continuou no papel”, afirmou Cid.
Vilardi insistiu que, se isso fosse verdade, o ajudante deveria lembrar com mais clareza.
“Ele parece esquecer justamente dos pontos mais graves. E quando lembra, muda a história. A denúncia diz uma coisa, e ele fala outra”, concluiu.
O advogado disse ainda que vai mostrar, no depoimento final de Bolsonaro, que muitas dessas versões são imprecisas ou falsas, e que o ex-presidente vai ter chance de contar seu lado da história.
O depoimento de Mauro Cid trouxe mais dúvidas do que certezas. Suas declarações variam conforme os momentos e não parecem totalmente firmes, o que abre espaço para críticas da defesa de Bolsonaro. Seja sobre relatórios do Ministério da Defesa, reuniões com militares ou documentos sigilosos, Cid mostrou muitas lacunas e contradições. Para o cidadão comum, tudo isso mostra o quanto é difícil entender o que realmente aconteceu naquele período pós-eleição e reforça a importância de ouvir todos os lados antes de tirar conclusões definitivas. A palavra final deve vir com o depoimento de Bolsonaro, que promete colocar mais luz sobre o caso.

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