Durante anos, Donald Trump se vendeu ao mundo como o mestre da negociação. Autor do best-seller The Art of the Deal, o ex-presidente americano construiu sua imagem pública como alguém que sabe pressionar, blefar e arrancar o melhor acordo possível. Mas, quando as regras do jogo envolvem potências globais e bilhões de vidas impactadas por decisões políticas, o “estilo Trump” mostrou não ser apenas falho — mas perigoso.
E o que aconteceu agora com as tarifas da China é prova disso.
O blefe que virou vergonha
Trump subiu ao palco da economia global com uma proposta ousada: tarifas de até 245% sobre produtos chineses, como forma de “proteger a indústria americana”. O argumento era populista e nacionalista — e por isso, altamente eficaz entre seus apoiadores. Mas a estratégia era frágil. Um blefe. Ele acreditava que a China cederia à pressão, piscaria primeiro, e viria negociar.
Não foi isso que aconteceu.
A China, fria e calculista, manteve-se em silêncio. E no mundo da geopolítica, silêncio também é uma resposta — e das mais eloquentes. O mercado, sentindo o cheiro da instabilidade, reagiu. Empresas congelaram investimentos. Bolsas oscilaram violentamente. E no final, quem pagou mais caro foram os próprios americanos, que viram os preços subirem enquanto a confiança empresarial derretia.
Agora, Trump volta atrás.
Admitiu que as tarifas estavam altas demais e sinalizou publicamente que vai reduzi-las. A arte da negociação virou a arte do recuo.
Por que não começar pela diplomacia?
Essa é a pergunta que não quer calar.
Se o objetivo era negociar com a China, por que não começar por onde os líderes sensatos começam? Por uma mesa, por diplomatas, por uma construção mútua. Em vez disso, Trump optou por uma entrada teatral, com tarifas punitivas e discursos inflamatórios. Colocou em risco a credibilidade do governo americano e gerou instabilidade econômica global — tudo isso para, no final, fazer o que deveria ter feito desde o início: negociar.
Será que foi incompetência? Ou havia outro interesse por trás?
Peter Navarro e o economista imaginário
Parte dessa estratégia desastrosa pode ser atribuída a Peter Navarro, um dos principais assessores econômicos de Trump. Mas aqui a história toma um rumo quase cômico, se não fosse tão grave. Navarro, sentindo-se isolado nas suas ideias heterodoxas sobre tarifas — ideias que nenhum economista sério apoiava — simplesmente inventou um economista.
Sim, você leu certo.
Ele criou o “Ron Vara”, um especialista fictício, cujas opiniões ele mesmo citava em artigos e palestras para dar mais peso às suas ideias. Um anagrama de seu próprio nome, Navarro, “Ron Vara” virou o “especialista” que justificava políticas que nenhum profissional de verdade ousava endossar.
Isso é só ridículo? Ou é sintoma de um problema mais profundo na forma como decisões são tomadas ao mais alto nível do governo americano?
As tarifas atingem a China? Sim. Mas quem paga a conta é o americano
Muito se fala sobre “proteger a indústria nacional”. Mas proteger a que custo?
Na prática, quem paga pelas tarifas não é a China — é o consumidor americano. Produtos importados ficam mais caros. Indústrias que dependem de insumos chineses ficam sufocadas. Investimentos são adiados. E a tão sonhada independência econômica se transforma em uma ilusão cara e ineficaz.
Curiosamente, os mesmos que criticaram as “taxas das blusinhas” no Brasil — implementadas pelo governo Lula — aplaudiram as tarifas do Trump. Mas a lógica é exatamente a mesma. Muda-se o personagem, mas o impacto sobre o povo é idêntico.
Afinal, você é contra tarifas porque elas prejudicam o consumidor, ou só quando o inimigo político é quem as implementa?
Os defensores do “plano 6D” e o colapso da narrativa
Durante meses, os apoiadores incondicionais de Trump — os chamados trumpistas — diziam que tudo fazia parte de um plano genial, uma estratégia em múltiplas dimensões que nós, simples mortais, não poderíamos compreender.
Agora, com o ex-presidente recuando publicamente, como esses defensores reagem? Vão admitir o erro, ou criar uma nova camada de fantasia para justificar o recuo como parte de uma nova “tática secreta”?
Quantas vezes mais a realidade precisa contradizer a narrativa para que alguns percebam que não há plano nenhum?
A instabilidade como arma — e como veneno
Há quem diga que Trump usou a instabilidade do mercado como uma arma tática. Que ao provocar oscilações na bolsa, ele ou seus aliados poderiam se beneficiar financeiramente — comprando ações em baixa e vendendo em alta após suas declarações.
Seria apenas uma teoria conspiratória? Talvez. Mas não podemos ignorar os ganhos suspeitos em torno desses movimentos.
Enquanto empresas tentavam entender se deveriam investir ou recuar, enquanto famílias americanas lidavam com preços inflacionados, alguém estava lucrando com o caos. E essa é uma realidade difícil de engolir.
A resposta da China: firmeza e pragmatismo
Ao contrário do show de pirotecnia norte-americano, a China manteve sua postura firme e pragmática. Não respondeu com insultos. Apenas esperou.
E, no momento certo, quando Trump finalmente deu sinais de ceder, respondeu com uma simples frase: “a porta está escancarada para negociações.”
Nada mais simbólico. Um recado direto ao mundo: quem tenta negociar com força bruta e blefes perde. Quem mantém a cabeça fria, vence.
E a indústria americana? Para que proteger o que está em declínio?
Outro ponto que Trump e seus aliados parecem ignorar é que o valor da economia moderna não está mais na indústria pesada — mas nos serviços, na tecnologia, no conhecimento.
Estados Unidos são líderes em software, inteligência artificial, biotecnologia. Forçar o retorno de fábricas apenas para agradar um discurso nostálgico é andar para trás. É fingir que estamos em 1950.
Mais do que isso: criar barreiras artificiais só funciona enquanto elas existem. Basta a tarifa cair — por decisão política, judicial ou por pressão internacional — para que toda a indústria protegida desmorone. É uma base construída na areia.
Em caso de guerra, precisamos da indústria interna?
Outro argumento comum é o da segurança nacional: “em caso de guerra, precisamos da indústria dentro do país”.
Mas esse é um mito.
Nunca houve guerra moderna em que um país tenha produzido 100% de seus insumos internamente. A cadeia global de suprimentos é, por definição, global. Insumos vêm de diferentes continentes. E tentar isolar tudo dentro de um único país, além de impossível, seria economicamente inviável.
Num cenário realista, é mais barato (e eficaz) estabelecer acordos com aliados — ou, em casos extremos, controlar recursos estrangeiros — do que tentar transformar o país numa fortaleza autossuficiente.
No fim, o recuo foi positivo. Mas o estrago já estava feito.
É justo reconhecer: Trump voltar atrás foi melhor do que insistir no erro. Assumir o erro é uma atitude mais nobre do que fingir que está tudo sob controle. Isso é algo que muitos líderes poderiam aprender com esse episódio.
Mas o estrago já havia sido feito: credibilidade perdida, instabilidade gerada, e bilhões de dólares evaporados no processo.
E para quê?
E agora, Trump?
Depois do fiasco, resta a Trump revisar suas escolhas. Especialmente a escolha de assessores. O caso de Peter Navarro é emblemático. Um ex-membro da equipe da Hillary Clinton, defensor de ideias econômicas questionáveis, que chegou ao cúmulo de inventar um personagem fictício para embasar suas teses.
Será que esse é o tipo de conselheiro que um presidente deveria ouvir?
Se há algo que Trump deveria resgatar do seu programa The Apprentice, é a capacidade de identificar incompetência e dizer: “Você está demitido.”
O que aprendemos com tudo isso?
Esse episódio é mais do que uma crise diplomática ou uma jogada econômica mal calculada. É um espelho da política contemporânea: líderes que governam com base em slogans, blefes e narrativas vazias — enquanto o povo arca com as consequências.
E deixa uma pergunta no ar:
Quantas vezes ainda vamos cair no conto do líder infalível antes de entender que política exige mais do que carisma? Exige responsabilidade.
Se você chegou até aqui, reflita: o que você espera de quem toma decisões em seu nome? Um blefador audacioso ou um estadista prudente?

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