O Silêncio de Tagliaferro e a Tempestade que Pode Estar por Vir


O nome de Eduardo Tagliaferro não era conhecido por muitos brasileiros até recentemente. Mas no próximo dia 29 de abril, o país pode se deparar com um depoimento capaz de abalar as estruturas do sistema judiciário — e talvez, até da democracia brasileira. O Senado marcou essa data para ouvir oficialmente o ex-chefe do CIED (Centro Integrado de Enfrentamento à Desinformação e Defesa da Democracia), um dos nomes mais enigmáticos e controversos por trás das investigações de “fake news” conduzidas sob as ordens do ministro Alexandre de Moraes.

Mas... quem é esse homem que está prestes a ser ouvido? E por que esse depoimento pode ser tão explosivo?


Uma Teia de Silêncios e Ordens

Tagliaferro trabalhou diretamente com Alexandre de Moraes no TSE. Na teoria, sua missão era clara: coordenar investigações sobre desinformação eleitoral. Mas a prática revelou algo muito mais sombrio.

As denúncias que vieram à tona — muitas delas publicadas pela Folha de São Paulo — mostram que Tagliaferro não agia de forma independente. Ao invés de monitorar redes e gerar relatórios a partir de análises técnicas, ele recebia ordens diretas para procurar algo contra alvos específicos: jornalistas, veículos de imprensa como a Revista Oeste, políticos de direita, influenciadores. Ou seja, ao invés de apurar fatos, buscava provas para validar uma narrativa já definida. Relatórios produzidos a pedido do próprio Moraes eram posteriormente apresentados como “denúncias anônimas” — uma manobra que, além de contraditória, levanta sérias questões sobre abuso de autoridade.

Isso ocorreu, vale lembrar, entre o primeiro e o segundo turno das eleições de 2022. Um momento de altíssima tensão nacional, onde cada informação — verdadeira ou não — poderia influenciar milhões de votos. E o aparato judicial, que deveria ser imparcial, pode ter se transformado numa máquina seletiva de censura.


Mas Por Que Só Agora Ele Quer Falar?

A reviravolta começou após sua demissão. Tagliaferro perdeu o emprego após um episódio confuso envolvendo um disparo de arma de fogo em casa. Ele diz que foi um acidente. A ex-esposa afirma que foi intencional. A verdade ainda está enevoada.

Mas foi justamente após perder o cargo que ele começou a “vazar” informações. Primeiro, para a imprensa. Depois, em conversas particulares com a nova companheira e até com o jornalista Oswaldo Eustáquio — mensagens que também foram divulgadas. Nelas, Tagliaferro afirma ter medo de ser morto por Alexandre de Moraes. Ele cogita fugir para a Europa. Vai à Itália, mas retorna. E então… silêncio.

Será que ele realmente quer falar a verdade? Ou está apenas negociando sua própria sobrevivência?


A Força de um Depoimento com Imunidade

A audiência no Senado pode ser sua chance de se libertar desse impasse. Diferente de uma investigação comum, o Congresso oferece uma espécie de escudo. Lá, como convidado de uma audiência pública, Tagliaferro pode se expressar sem medo de represálias legais — ao menos em tese.

A Constituição garante esse tipo de proteção para depoentes em comissões parlamentares. E essa proteção é crucial. Porque, segundo ele, está sendo investigado pela Polícia Federal por violar sigilo profissional. E mesmo assim, há fortes indícios de que ele foi o responsável por vazar os documentos à imprensa. Se isso for verdade — e se o objetivo foi expor uma estrutura de abuso de poder — ele deveria ser tratado como fonte jornalística, e não como criminoso.


Ele Vai Falar?

Essa é a pergunta que paira no ar. Tagliaferro foi convidado, mas não está obrigado a comparecer. E mesmo que compareça, também pode escolher ficar em silêncio. Afinal, ele não é réu. Ainda.

Mas caso decida falar, o impacto pode ser avassalador.

Imagine a cena: Tagliaferro, em frente aos senadores, detalhando como era o fluxo de ordens vindas diretamente de Alexandre de Moraes. Revelando os bastidores das decisões de censura durante a eleição. Falando sobre o papel de outros ministros, como Barroso, Fux, ou até Carmen Lúcia.

Quantas dessas ordens foram repassadas verbalmente, sem deixar rastros? Quais foram os limites ultrapassados em nome da “democracia”? O que ainda está escondido nas sombras?


Uma Escolha Moral e Política

A presença de Tagliaferro no Senado não é apenas um ato burocrático. É um momento que nos força a refletir: até que ponto permitimos que a Justiça se tornasse uma arma política?

Afinal, se as acusações forem verdadeiras — e tudo aponta que são — estamos diante de um sistema judicial que manipulou informações, perseguiu opositores e encobriu seus próprios passos com mecanismos institucionais de proteção. Um sistema que censurou apenas um lado do espectro político, com consequências diretas sobre o resultado de uma eleição presidencial.

Você acha que, em qualquer outro país minimamente sério, isso seria ignorado?


E o STF, Onde Entra Nessa História?

Hoje, com um STF majoritariamente de esquerda, qualquer esperança de responsabilização desses atos soa como ilusão. O próprio Supremo já se posicionou dizendo que não vê problema algum nas ações descritas. Mas isso pode mudar.

Em breve, novas nomeações poderão mudar o equilíbrio da corte. E quando isso acontecer — se acontecer — esses fatos precisam estar documentados, investigados e devidamente julgados.

Por isso, mesmo que nada aconteça agora, o depoimento de Tagliaferro pode ser o início da construção de um futuro acerto de contas.


E Se Ele Tiver Fingindo?

Claro, sempre existe essa dúvida. E ela é legítima.

Tagliaferro trabalhou por meses obedecendo ordens que, hoje, ele diz repudiar. Só se revoltou depois que foi demitido. Será que realmente mudou de lado? Ou está apenas tentando se proteger ou barganhar?

Essas perguntas não podem ser ignoradas. Mas isso não anula a gravidade do que ele pode revelar. Mesmo que suas motivações sejam questionáveis, os fatos precisam ser checados, confrontados e debatidos em público.


O Que Está em Jogo

A audiência de 29 de abril não é só sobre Eduardo Tagliaferro.

É sobre como o Brasil está lidando com seus próprios limites institucionais. É sobre censura, liberdade de expressão, transparência e a verdadeira função do Judiciário em uma democracia.

E, acima de tudo, é sobre como reagiremos ao descobrir que talvez não estivemos vivendo uma plena democracia nos últimos anos — mas sim uma encenação cuidadosamente coreografada, com cortes e silenciamentos sob medida.

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