Barroso Tomou Apavoro no Aeroporto de Miami



No dia 7 de janeiro, um episódio simbólico escancarou uma verdade incômoda para o Brasil. Luiz Roberto Barroso, presidente do Supremo Tribunal Federal, desembarcava em Miami, uma das cidades mais internacionalizadas do mundo, quando foi surpreendido por algo que talvez não esperasse encontrar fora do país: a rejeição popular.


Hostilizado no aeroporto por brasileiros que ali estavam, Barroso provou o gosto amargo da impopularidade, sem a blindagem habitual que o separa do cidadão comum. E ali, em solo americano, não havia toga, não havia escolta da FAB, não havia a reverência compulsória. Havia apenas o impacto da realidade. O que será que passou pela cabeça de um dos homens mais poderosos da República brasileira naquele instante?


Talvez ele tenha se perguntado: “Como chegamos a esse ponto?” Mas a pergunta mais honesta seria: “Por que não consigo andar na rua como qualquer outro cidadão?”


Antes de seguirmos, vale refletir: por que um ministro do Supremo Tribunal Federal precisa justificar o uso de aeronaves da FAB para deslocamentos internacionais, como o que ocorreu entre Miami e Brasília? Oficialmente, por “motivos de segurança”. Extraoficialmente, porque, ao que parece, os ministros do STF vivem uma vida que cada vez mais se distância da normalidade – e, principalmente, do povo.


Barroso não é exceção. Nos últimos anos, ele se tornou uma das figuras mais visíveis do Supremo. E isso não é coincidência. É resultado de uma postura pública e deliberada. Participações em fóruns empresariais internacionais, declarações políticas em eventos públicos, viagens em primeira classe para congressos... tudo isso desenha uma imagem de um ministro que busca protagonismo. Mas protagonismo tem um preço.


E quando o povo cobra, mesmo que seja apenas com palavras duras em um aeroporto, o desconforto é instantâneo.


O episódio em Miami é só o sintoma de algo muito maior: a percepção generalizada de que o Judiciário brasileiro – especialmente a cúpula – vive como uma corte monárquica em pleno século XXI. Lembra da expressão “marajás”, tão usada por Fernando Collor nos anos 90? Pois é, eles continuam vivos. Só trocaram de roupa e de cargo.


Um ministro do STF tem teto salarial. Mas, como dizem os especialistas, esse teto é mais simbólico do que real. Com penduricalhos, gratificações, auxílios e acúmulo de funções, alguns integrantes da magistratura recebem valores que ultrapassam os R$ 100 mil por mês.


E mais: além dos vencimentos generosos, têm direito a carro oficial, motorista, seguranças, passagens, hospedagens de alto padrão e, como vimos, até voos em aeronaves da Força Aérea Brasileira. É uma bolha onde a realidade do brasileiro médio – que pega ônibus lotado e não sabe como pagar o aluguel no fim do mês – simplesmente não entra.


Você já parou pra pensar por que tantos magistrados se tornam figuras públicas, opinando sobre política, sobre costumes, sobre economia? Porque deixaram de ser apenas juízes. Tornaram-se agentes políticos sem voto.


Barroso, ao justificar o uso de R$ 40 mil em segurança para acompanhar Dias Toffoli em um jogo da Champions League, não hesita: a culpa é da hostilidade da população. Em outras palavras, o problema não está em seus atos, mas na reação do povo.


Será mesmo?


Não seria mais honesto admitir que há uma desconexão brutal entre a elite do Judiciário e o Brasil real? Não seria mais coerente repensar o papel que esses ministros têm assumido na sociedade – muitas vezes indo além dos autos, se expondo como verdadeiros políticos togados?


Em vez disso, a solução apresentada é sempre a mesma: mais segurança, mais proteção, mais distância do povo.


Os ministros andam escoltados como chefes de Estado. Seus familiares, muitas vezes ligados a escritórios de advocacia, frequentam os mesmos ambientes luxuosos. E quando surgem críticas, elas são tratadas como ameaças à democracia.


Mas será que criticar um ministro é atentar contra o Estado de Direito? Ou será apenas o exercício legítimo da cidadania? Nos Estados Unidos, como lembrou o comentarista Paulo Figueiredo, qualquer cidadão pode olhar nos olhos de um juiz da Suprema Corte e dizer o que pensa – com todas as letras. Isso é liberdade de expressão.


Aqui, a crítica vira “ódio”, a indignação vira “radicalismo” e o questionamento vira “ataque ao Judiciário”.


O jornalista Paulo Figueiredo narra uma lembrança de infância: seu avô, presidente da República durante a ditadura militar, andava pelas ruas do Rio de Janeiro com apenas dois seguranças. Almoçava em restaurantes, ia ao banco, cumprimentava as pessoas. Não era unanimidade, claro. Mas era respeitado – não por blindagem institucional, mas por conduta pessoal.


Hoje, ministros não andam na rua. Vivem cercados por seguranças, dentro de carros blindados e cercados de protocolos. E, ainda assim, se dizem incompreendidos. Mas será que essa aversão do povo é gratuita? Ou seria consequência de uma atuação cada vez mais politizada, distante dos autos, próxima das câmeras?


Nos Estados Unidos, a maioria das pessoas mal sabe o nome dos juízes da Suprema Corte. Eles aparecem quando julgam, e só. Aqui, no Brasil, sabemos nome, rosto, opinião política e até destinos de férias dos 11 ministros.


Por que tanta exposição? Por que tanto apelo midiático?


Será que o STF está cumprindo sua missão constitucional ou virou palco de vaidades pessoais e de protagonismo político?


O que aconteceu em Miami não foi um caso isolado. Foi o reflexo de um mal-estar profundo entre o povo e parte do Judiciário. Barroso foi apenas o rosto visível de um poder que se habituou a viver acima do bem e do mal.


Ele foi hostilizado, não ameaçado. E em um país que valoriza a liberdade de expressão, ouvir verdades duras faz parte da função pública. Afinal, quem escolhe o palco também aceita as vaias.


Os ministros querem o melhor dos dois mundos: viver como estrelas de Hollywood, mas com a estabilidade de uma função pública vitalícia. Sem prestar contas, sem correr riscos, sem passar pelo crivo do voto.


Eles querem a riqueza sem ter que criá-la. A fama sem ter que disputá-la. O poder sem ter que justificá-lo.


E quando a população ousa questionar, a resposta vem em forma de aviões da FAB, aumento de segurança, novas regalias. É o Judiciário transformado numa casta — com direitos acima da lei que deveriam defender.


O caso Barroso deveria nos fazer refletir.


Até quando aceitaremos um Judiciário que atua como poder absoluto, sem transparência, sem fiscalização e sem moderação?


Por que é tão difícil abrir o debate sobre os privilégios, os excessos e os conflitos de interesse que cercam a mais alta Corte do país?


Se ministros querem atuar como políticos, precisam estar dispostos a serem cobrados como tal. E talvez até se submeterem àquilo que nenhum deles parece querer enfrentar: o julgamento do povo.


Você acha que os ministros do STF estão realmente ameaçados — ou estão apenas colhendo as consequências de suas escolhas públicas?

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