No Supremo Tribunal Federal (STF), onde a narrativa oficial sobre o 8 de janeiro de 2023 está sendo montada como se fosse um roteiro de filme político, dois depoimentos surpreenderam por sua clareza, firmeza e, acima de tudo, por quebrarem uma das colunas centrais da acusação: a ideia de que Jair Bolsonaro teria articulado ou incentivado uma tentativa de ruptura institucional após sua derrota eleitoral em 2022.
Na sexta-feira (30), o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, e o senador Ciro Nogueira, ex-ministro da Casa Civil durante o governo Bolsonaro, deram depoimentos que desmontam qualquer teoria de que houve planejamento ou intenção real de golpe por parte do então presidente. E isso, vindo de duas pessoas próximas ao núcleo do poder na época, é algo que não pode ser ignorado.
Tarcísio: "Bolsonaro Estava Triste, Resignado e Não Falou em Ruptura"
Tarcísio de Freitas, que foi ministro da Infraestrutura no governo Bolsonaro e atualmente governa o maior estado brasileiro, foi direto ao responder às perguntas feitas pela defesa do ex-presidente:
“Jamais, nunca.”
Essas foram as palavras usadas pelo governador ao ser questionado se, nas conversas que teve com Bolsonaro após o segundo turno de 2022, houve alguma menção à possibilidade de ruptura institucional. Ele reforçou que não só durante o mandato dele como ministro, mas também nos encontros pós-eleição, esse assunto nunca esteve na mesa.
Ele contou que visitou Bolsonaro três vezes em Brasília — nos dias 15 e 19 de novembro, e depois em 10, 14 e 15 de dezembro — e que, nessas ocasiões, o então presidente demonstrava tristeza e resignação diante da derrota, mas nunca mencionou medidas extremas ou falou em romper com as instituições.
“O presidente Bolsonaro estava triste, resignado. Estava com erisipela muito grave, inclusive com um acesso no braço para medicação intravenosa. Conversamos várias coisas e esse assunto nunca veio à pauta”, detalhou Tarcísio, deixando claro que o tom das conversas era mais pessoal do que estratégico.
E mais do que isso: Bolsonaro expressava preocupação com o futuro do país sob Lula, mas sem sinalizar qualquer plano de impedir a transição. Muito pelo contrário.
A Reação de Bolsonaro Após a Derrota: Tristeza, Mas Sem Radicalização
Segundo Tarcísio, Bolsonaro não via com bons olhos a forma como o novo governo conduziria temas econômicos e sociais. Isso porque, desde 2019, o país havia passado por reformas importantes, enfrentado crises como a de Brumadinho, a pandemia de Covid-19, a crise hídrica e até os efeitos da guerra na Ucrânia.
Mesmo assim, havia um sentimento de orgulho. O ex-presidente acreditava ter feito o melhor possível. E, acima de tudo, estava ciente de que seu tempo havia acabado.
“O único comentário era de lamentar e mostrar preocupação que a coisa desandasse [com o novo governo]”, disse Tarcísio, reforçando que Bolsonaro parecia aceitar o resultado eleitoral, mesmo com suas ressalvas políticas.
E o governador não só negou planos de ruptura, como também negou categoricamente qualquer envolvimento de Bolsonaro com os atos do 8 de janeiro, que resultaram na invasão do Congresso, do STF e do Palácio do Planalto.
“Não, nenhum. Presidente sequer estava no Brasil”, respondeu, quando pressionado sobre essa ligação.
Ciro Nogueira: A Transição Começou Antes Mesmo da Viagem aos EUA
Outro ponto crucial veio do depoimento de Ciro Nogueira, ex-ministro da Casa Civil de Bolsonaro e responsável por organizar a transição de poder para Lula.
Ciro afirmou que, ainda no dia 1º de novembro de 2022, logo após o segundo turno, Bolsonaro já tinha determinado que ele iniciasse os trabalhos de transição, garantindo que a equipe de Lula recebesse informações sobre o andamento dos principais projetos federais.
Além disso, dez dias antes da primeira visita registrada de Tarcísio, Bolsonaro já havia dado início formal ao processo de transferência de poder. Uma indicação clara de que ele não estava interessado em obstruir o próximo governo, nem em criar obstáculos burocráticos.
Mas o mais impactante foi outro trecho do depoimento:
“Algumas das situações da transição nos decepcionou, como uma falta de interesse da situação do país.”
Isso revela que a equipe de Lula demonstrou pouco envolvimento com os preparativos, o que levou Ciro a alertar Bolsonaro sobre a necessidade de fazer uma declaração pública para desmobilizar movimentos radicais, especialmente entre caminhoneiros que começavam a bloquear estradas.
A Live de 30 de Dezembro e a Frase Simbólica: “Nada Termina Aqui”
Tarcísio lembrou que, dez dias antes de embarcar para os Estados Unidos no fim de 2022, Bolsonaro participou de uma live onde disse que ‘nada termina aqui’, e que “a vida continua”.
Para quem assistiu à transmissão, aquela frase ecoou como um recado importante. Um gesto de reconhecimento da derrota e aceitação do jogo democrático, mesmo diante de uma narrativa que insistia em alimentar a insatisfação de setores radicais da sociedade.
E, ironicamente, essa fala agora volta à cena como uma prova de que Bolsonaro não pretendia paralisar o país, tampouco incentivar movimentos violentos.
Os Encontros Físicos e o Estado Clínico de Bolsonaro
Tarcísio reforçou que, nos encontros que teve com Bolsonaro, o estado físico do ex-presidente era delicado. Ele sofria de complicações decorrentes de cirurgias anteriores, e tinha um acesso intravenoso no braço, usado para administração de medicamentos.
Isso mostra que Bolsonaro não estava em condições físicas ou emocionais de articular qualquer tipo de esquema golpista. Pelo contrário: ele parecia mais frágil do que ameaçador, e mais preocupado com a continuidade do Estado do que com a interrupção da ordem.
Especialistas jurídicos já apontam que esse depoimento vai contra a narrativa construída por Luís Roberto Barroso e Alexandre de Moraes, que insistem em pintar Bolsonaro como o cérebro por trás de uma suposta conspiração que nunca existiu.
O Que Esses Depoimentos Revelam Sobre o Brasil Hoje
Tarcísio e Ciro deram depoimentos que podem mudar o rumo da CPMI do 8 de janeiro, e até mesmo da investigação principal no STF. Por quê?
Porque eles mostraram que não houve planejamento de ruptura, que Bolsonaro aceitou o resultado eleitoral, e que o grande problema não foi o ex-presidente — foi a ausência de segurança no dia 8 de janeiro.
E, mais do que isso, eles confirmaram que a narrativa criada pelo STF é falsa. E que o julgamento do caso precisa ser feito com isenção, e não com viés político.
O Brasil Assistindo a uma Queda Lenta, Mas Inevitável
Os depoimentos de Tarcísio de Freitas e Ciro Nogueira são mais do que formais. São uma bomba contra a versão oficial do STF sobre o golpe que não aconteceu.
Eles não só negam qualquer envolvimento de Bolsonaro com rompimento institucional, como também mostram que ele estava fisicamente fragilizado, mentalmente desligado de planos de ação e emocionalmente abalado com a derrota eleitoral.
E, ao mesmo tempo, o país mergulha em crises reais, como o prejuízo bilionário da Petrobras, o rombo do INSS, e a guerra judicial com empresas americanas, que pode gerar retaliação comercial e diplomática contra o Brasil.
O cenário é claro: quanto mais o STF tenta criminalizar a oposição, mais ele se enfraquece. E quanto mais ele age com autoritarismo, mais o mundo o ignora.

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