O ex-presidente Jair Bolsonaro prestou depoimento ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, nesta terça-feira. Foi a primeira vez que os dois se encontraram pessoalmente desde o início das investigações sobre a suposta tentativa de golpe após as eleições de 2022.
Bolsonaro negou qualquer envolvimento em planos de ruptura institucional e afirmou que suas falas foram apenas parte de um desabafo durante uma reunião ministerial em julho daquele ano algo que ele classificou como “retórica política” e não como ameaça real. Ele disse ainda que sempre agiu “dentro das quatro linhas da lei”.
“Minha fala era só uma crítica, como eu já fiz muito quando era deputado. Nunca saí da legalidade”, afirmou o ex-presidente.
Este é o sexto depoimento realizado na ação penal, depois que a Corte aceitou por unanimidade a denúncia da Procuradoria-Geral da República contra ele e outros aliados. Entre os já ouvidos estão o tenente-coronel Mauro Cid, seu antigo ajudante de ordens, o deputado Alexandre Ramagem, o general Augusto Heleno, o almirante Almir Garnier e o ex-ministro Anderson Torres.
Críticas às urnas e pedido de desculpas
Moraes questionou Bolsonaro sobre declarações feitas durante a reunião ministerial de 5 de julho de 2022, quando ele levantou dúvidas sobre a segurança das urnas eletrônicas e acusou ministros do TSE de interferirem no resultado das eleições.
Bolsonaro respondeu dizendo que outras autoridades também já tinham feito críticas parecidas antes:
“Na época, o ministro Flávio Dino e o então ministro Carlos Lupi também falaram sobre isso.”
Ele voltou a defender o voto impresso como forma de garantir transparência e evitou dizer que teve provas concretas de fraude.
“Minha intenção nunca foi desacreditar o sistema, mas sim alertar e melhorar o processo eleitoral. Se houvesse mais confiança nas urnas, talvez nem estivéssemos aqui hoje.”
Em seguida, Bolsonaro pediu desculpas a Moraes e ao ministro Edson Fachin por ter dito, na mesma reunião, que eles poderiam estar recebendo milhões de dólares. Na ocasião, Fachin presidia o Tribunal Superior Eleitoral.
“Não tinha nenhuma prova disso, senhor ministro. Aquilo foi um desabafo, uma fala forte que eu uso há anos. Se fosse outra pessoa ocupando o cargo, eu teria falado a mesma coisa. Peço desculpas, porque não foi minha intenção acusar os senhores de nada”, afirmou Bolsonaro.
Vídeos não foram apresentados
Antes de começar o depoimento, Bolsonaro pediu para mostrar vídeos que ele afirma embasar sua defesa. O ministro Moraes, no entanto, negou o pedido , explicando que o momento não era adequado para exibição de vídeos ou documentos.
O ex-presidente reclamou de algumas decisões do TSE durante a campanha eleitoral de 2022, afirmando que elas atrapalharam sua imagem pública e prejudicaram sua disputa com Lula.
“Por exemplo, eu não pude fazer live do Palácio da Alvorada mostrando o outro candidato com boné de time adversário. Enquanto isso, eu era chamado de tudo quanto é nome, inclusive de pedo e geno”, reclamou.
Moraes rebateu, lembrando que várias das acusações foram bloqueadas pelo próprio TSE , inclusive imagens consideradas ofensivas:
“Quando você foi acusado de pedo, o TSE proibiu imediatamente a veiculação dessas imagens no debate eleitoral da TV, mesmo sendo provocado no domingo à tarde. Isso mostra que o tribunal agiu rápido e correto”, disse.
Momento descontraído no depoimento
Durante o depoimento, houve um momento mais leve. Bolsonaro brincou com a ideia de convidar Moraes para ser seu vice em 2026:
“Gostaria de convidar o senhor para ser meu vice na próxima eleição”, disse, arrancando risos dos presentes.
Moraes respondeu com ironia:
“Eu recuso o convite. E recomendo que consulte seus advogados antes de me convidar de novo.”
Defesa da liberdade de expressão
Bolsonaro insistiu que suas falas eram críticas políticas e não atos criminosos. Disse que jamais cogitou prisão de autoridades ou rompimento com as instituições.
“A gente queria mudanças, sim, mas dentro da Constituição. Sem violência, sem ilegalidade”, garantiu.
Ele lembrou que muitas das pessoas que participaram das discussões são militares e que essas figuras não dariam respaldo a um golpe armado ou ilegal.
O depoimento de Bolsonaro trouxe mais nuances ao caso, mas não encerrou as dúvidas sobre a real intenção das ações dele e de seus aliados. Embora tenha negado qualquer plano de golpe e pedido desculpas públicas a Moraes, suas repetidas críticas às urnas e à Justiça Eleitoral continuam alimentando o debate sobre até onde vai a liberdade de crítica e onde começa a tentativa de desestabilizar o sistema eleitoral.
Agora, cabe ao STF analisar todas as versões e decidir se houve realmente uma tentativa de golpe ou se tratou-se apenas de conversas políticas. Para o cidadão comum, o caso mostra como é importante manter a democracia intacta, com respeito às instituições e ao jogo político, sem ultrapassar limites legais. A linha entre opinião, crítica e crime continua fina, e o país espera uma resposta clara do Judiciário.

0 Comentários