Na terça-feira, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva surpreendeu ao criticar diretamente a cultura brasileira de descontos e isenções fiscais, chamando isso de “deficiência cultural”. A declaração foi dada durante uma coletiva em Brasília, mas o contexto não poderia ser mais irônico: enquanto ele fala em taxar quem ganha mais de R$ 1 milhão por ano, o Brasil perde anualmente R$ 800 bilhões em impostos graças a incentivos tributários.
E aí surge a pergunta que ninguém quer responder:
Se Lula realmente quer construir um país com mais justiça social, por que continua mantendo esse rombo gigante causado por isenções que beneficiam exatamente quem tem mais poder econômico?
A Dura Crítica de Lula: “Deficiência Cultural” ou Hipocrisia Eleitoral?
Em sua fala, Lula acusou setores do governo e da economia de se apegarem a benefícios fiscais como se fossem direitos adquiridos:
“Todo benefício que você dá para o setor produtivo, para os empresários, você dá por um ano, dois anos… Quando você quer tirar, é muito difícil. As pessoas querem que seja permanente.”
Ele também fez referência à desoneração da folha de pagamento, medida criada no governo Dilma Rousseff e renovada sucessivamente até hoje. Segundo o petista, essa política “desonerou a parte mais rica da sociedade e não gerou um emprego, nem estabilidade para o trabalhador.”
Só que há algo contraditório nessa visão. Afinal, foi ele próprio quem ajudou a consolidar essa prática, e agora parece arrependido mas só depois que ela virou alvo de críticas generalizadas.
O Congresso Nacional, por pressão de setores como o da indústria e agronegócio, já aprovou um cronograma de reoneração gradual da folha salarial entre 2025 e 2028. A alíquota subiu de zero para 5% neste ano, e seguirá subindo até voltar aos 20% originais.
Mas será que Lula está falando sério?
O Rombo Fiscal: R$ 800 Bilhões Por Ano – E Ninguém Paga?
O número é impressionante: R$ 800 bilhões por ano são perdidos pelo Tesouro Nacional com incentivos fiscais. Isso equivale a quase três vezes o orçamento do INSS, e mais do que o triplo do prejuízo recente da Petrobras.
Enquanto isso, o governo congela verbas essenciais e aumenta o IOF, num esforço de encontrar R$ 30 bilhões para tentar fechar as contas públicas. Só que esses R$ 30 bilhões representam menos de 4% do que o país deixa de arrecadar com isenções.
“Por que estamos cortando merreca se o buraco é de quase 1 trilhão?”
“Será que a verdadeira intenção de Lula é mesmo taxar os ricos ou só criar mais um inimigo para manter a polarização viva?”
Essas são perguntas que ecoam entre especialistas e cidadãos comuns. Porque se o problema fiscal real é tão grande, por que o foco está no Pix e nos pobres, e não nas grandes corporações e grupos que lucram com isenções?
A Reforma do Imposto de Renda: Lula Quer Pegar Quem Ganha Mais de R$ 1 milhão... Mas E os Outros?
Lula também defendeu a reforma do Imposto de Renda que prevê cobrança mínima de 10% sobre quem ganha mais de R$ 1 milhão por ano. Ele disse:
“Estamos isentando as pessoas que ganham até R$ 5 mil por mês, e vai ter que cobrar de quem ganha mais de R$ 1 milhão. O cara que ganha R$ 1 milhão ou mais e vai pagar 10% não quer pagar. Assim a gente não consegue construir um país de classe média.”
Parece nobre. Parece justo. Mas a realidade é outra.
No Brasil, quem ganha acima de R$ 1 milhão por ano geralmente tem mecanismos legais para reduzir sua carga tributária, e muitas vezes paga bem menos do que 10% de IRPF. Enquanto isso, milhões de brasileiros com renda média têm seus impostos retidos na fonte, sem chance de escapar da caneta governamental.
E pior: esse grupo de super-ricos é justamente o que mais se beneficia das isenções que Lula agora chama de "deficiência cultural".
Então surge a dúvida:
“Será que essa proposta é mesmo para pegar os ricos? Ou é apenas uma jogada para justificar novas medidas impopulares contra o povo?”
O IOF e a Guerra Com Hugo Motta
Enquanto Lula discursava sobre justiça social, Hugo Motta, presidente da Câmara dos Deputados, pressionava o governo a revogar imediatamente o aumento do IOF, especialmente sobre operações de crédito conhecidas como “risco sacado”, onde empresas recebem antecipação de recursos com base em contas a receber.
Motta afirmou claramente:
“O Brasil não aguenta mais as isenções fiscais que o país tem.”
Só que Lula não concorda com ele, e usa o discurso inflamado para justificar a manutenção do aumento:
“Do jeito que as coisas vão, é quase impossível fazer políticas que melhorem a qualidade de vida das pessoas que estão ainda deserdadas neste país.”
Mas aqui entra outro questionamento:
“Será que o problema é mesmo a falta de recursos? Ou é má gestão do dinheiro que já existe?”
Afinal, com R$ 800 bilhões indo embora em isenções duvidosas, talvez o maior problema do Brasil não seja gastar demais é perder dinheiro com privilégios injustificados.
Lula e a Herança de Dilma: “Fizeram Sacanagem Com Ela”
Ao defender a nova abordagem tributária, Lula também fez uma reflexão pessoal:
“Fizeram sacanagem com a Dilma. Eu sei que o ajuste que ela fez foi necessário, mas não era o momento certo. E eu vou aceitar qualquer consequência eleitoral se eu tiver que pagar por isso. Se eu perder a reeleição, tudo bem.”
Isso pode soar como humildade, mas é também uma confissão tácita: ele sabe que está tomando decisões impopulares, e que elas podem custar caro politicamente.
Quanto mais o PT insiste em falar de “justiça social”, mais ele se afasta da realidade do eleitor médio, que já sofre com alta de preços, inflação de serviços e falta de segurança jurídica.
Um País Dividido Entre o Discurso e a Realidade
Isso tudo mostra um Brasil onde o discurso do presidente não casa com a realidade fiscal do país. Lula fala em taxar os ricos, mas mantém isenções bilionárias que favorecem grandes corporações. Ele critica a deficiência cultural, mas ele mesmo foi peça fundamental nesse jogo de privilégios fiscais.

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