Lula se Encontrou Com Vários Líderes de Regimes Autoritários no Atual Mandato


Apesar de ter vencido as eleições em 2022 com discursos sobre democracia e direitos humanos, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva já se reuniu com pelo menos 20 líderes de países com regimes autoritários ou ditatoriais desde que assumiu novamente o cargo.


Entre esses encontros, os presidentes da China, Xi Jinping, e de Cuba, Miguel Díaz-Canel, são os que mais vezes conversaram com o petista: juntos, somam sete reuniões privadas.


Só no ano passado, Lula se encontrou quatro vezes com o líder cubano. Com o chinês, foram três encontros, tanto em viagens oficiais à China quanto durante a visita de Xi ao Brasil.


Além desses, o presidente russo Vladimir Putin também entrou na lista. E não parou por aí: Lula já recebeu ou visitou outros líderes africanos e árabes que governam seus países com mão pesada.


Segundo um levantamento feito pela Gazeta do Povo, o presidente teve ao menos 20 reuniões com chefes de Estado de 19 países que vivem sob regimes autoritários nos últimos anos.


O levantamento considerou apenas os encontros marcados oficialmente na agenda presidencial e realizados pessoalmente. Foram contabilizados apenas os momentos em que Lula esteve cara a cara com esses líderes, em conversas bilaterais ou particulares.


Para definir quais países eram autoritários, foi usado o ranking mais recente do jornal britânico The Economist , divulgado em 2025 e referente a dados de 2024. Esse estudo analisa fatores como liberdade política, funcionamento do governo e direitos civis em mais de 160 países.


Países como Haiti e Etiópia, apesar de não serem ditaduras "clássicas" como Cuba ou Venezuela, também entraram na lista por apresentarem características autoritárias.


A polêmica viagem à Rússia

Uma das viagens mais comentadas foi a que Lula fez à Rússia em maio deste ano. O país é governado por Vladimir Putin, líder acusado de crimes de guerra por conta da invasão à Ucrânia. Além disso, há um mandado internacional de prisão contra ele emitido pelo Tribunal Penal Internacional por supostamente retirar milhares de crianças ucranianas para a Rússia.


Como Putin não pode vir ao Brasil sob risco de ser preso, o presidente brasileiro viajou até Moscou. Ele participou das celebrações dos 80 anos da vitória soviética na Segunda Guerra Mundial, posou para fotos ao lado do ditador e ainda manteve conversas privadas com ele.


Segundo o Ministério das Relações Exteriores (Itamaraty), os temas discutidos foram assuntos políticos e econômicos entre os dois países. Em um dos encontros, Lula demonstrou interesse em obter tecnologia nuclear da Rússia algo que Moscou normalmente não compartilha nem com aliados próximos.


Muitos especialistas viram essa viagem como um erro diplomático. Afinal, o Brasil tem sido cobrado a apoiar a Ucrânia na guerra e mostrar firmeza contra a invasão russa.


Ainda assim, Lula continuou fazendo declarações que pareciam minimizar a responsabilidade da Rússia pelo conflito, o que gerou críticas tanto dentro quanto fora do país.


A aproximação com a China

Lula também buscou se aproximar muito da China, governada por Xi Jinping, um dos líderes mais autoritários do mundo. O petista viajou duas vezes à China desde que voltou ao poder: uma em 2023 e outra em 2025.


Em sua segunda viagem, ele pediu ajuda ao governo chinês para controlar redes sociais no Brasil — tema delicado, já que a China é conhecida por censurar fortemente a internet e limitar a liberdade de expressão de seu povo.


Já em 2024, foi o próprio Xi Jinping quem veio ao Brasil, aproveitando a Cúpula do G20 no Rio de Janeiro. Depois do evento, ele seguiu para Brasília, onde teve um encontro reservado com Lula.


Esses gestos indicam uma tentativa do presidente brasileiro de fortalecer a relação com Pequim. Apesar das críticas sobre o regime chinês, Lula justifica a aproximação pelo comércio, já que a China é hoje o maior parceiro comercial do Brasil.


Reatar relações com a Venezuela

Outro país com quem Lula buscou reaproximação é a Venezuela, governada por Nicolás Maduro, cujo regime é frequentemente acusado de violar direitos humanos e sufocar a oposição.


Com a justificativa de retomar relações diplomáticas rompidas durante o governo Bolsonaro, Lula recebeu Maduro em Brasília com honrarias. Os dois tiveram pelo menos duas conversas privadas, e o presidente brasileiro chegou a defender publicamente o regime venezuelano.


Depois de receber o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, em Brasília, Lula chegou a dizer que o país era "vítima de uma narrativa negativa" sobre autoritarismo, ignorando denúncias de violações de direitos humanos e perseguição política no país.


Essas declarações causaram críticas tanto dentro quanto fora do Brasil. Mesmo assim, o governo brasileiro tentou ajudar na realização de eleições presidenciais consideradas livres na Venezuela, buscando ser um mediador entre o governo de Maduro e a oposição.


A diplomacia brasileira entrou em ação com ligações e encontros envolvendo representantes dos dois países, na tentativa de garantir que o processo eleitoral fosse aceito pela comunidade internacional. Mas os esforços não deram certo.


Depois das eleições, realizadas em julho de 2024, e com a vitória de Maduro sem transparência comprovada, Lula preferiu manter certa distância do ditador venezuelano. Só que muitos especialistas viram essa mudança como tardia, já que o Brasil já havia sofrido críticas por apoiar o regime de forma insistente.


Além da Venezuela: os encontros com outros líderes autoritários

Além de Maduro, Lula já se encontrou com pelo menos outros 19 líderes de países classificados como autoritários ou ditatoriais nos últimos anos.


Entre eles estão Xi Jinping, Vladimir Putin, Miguel Díaz-Canel, além de presidentes da Arábia Saudita, Irã, Egito, Catar, Etiópia, Vietnã, Jordânia, Haiti, Líbia, União das Comores, Palestina, Emirados Árabes, República do Congo e República Democrática do Congo.


Muitos desses encontros aconteceram durante grandes eventos internacionais, como cúpulas de líderes mundiais. Em outras ocasiões, Lula foi convidado ou decidiu visitar esses países pessoalmente — casos de Cuba, Egito, China, Rússia, Arábia Saudita, Catar e Vietnã.


O Palácio do Planalto explicou que a maioria das reuniões teve como objetivo principal fortalecer parcerias comerciais e firmar acordos bilaterais. Em alguns casos, especialmente com países alinhados ideologicamente ao governo petista, o interesse foi reforçar relações políticas, como ocorreu nas conversas com Xi Jinping e Vladimir Putin.


O papel dos Brics nesses contatos

Vários desses encontros também tiveram ligação com o grupo dos Brics , formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. Nos últimos anos, o bloco ampliou sua participação com a entrada de novos membros como Egito, Arábia Saudita, Emirados Árabes, Etiópia, Irã e Indonésia.


Países como Belarus, Bolívia, Cuba, Cazaquistão, Malásia, Tailândia, Uganda e Uzbequistão também passaram a participar como membros parceiros — acompanhando as discussões, mas sem poder de decisão.


Neste terceiro mandato, Lula já visitou quase todos os países com status completo no bloco, exceto o Irã, onde o vice-presidente Geraldo Alckmin representou o Brasil. Mesmo assim, Lula se encontrou com o ex-presidente iraniano Seyyed Ebrahim Raisi em 2023, durante uma cúpula na África do Sul, e falou por telefone com o novo presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, em 2024.


Apesar de ser considerado um dos países mais fechados do mundo em termos democráticos (ocupando a 154ª posição no ranking do The Economist ), o Irã tem sido alvo de aproximação por parte do Brasil, graças à sua nova posição nos Brics.


Dos 11 países que têm poder de voto no bloco, apenas Brasil, Índia, África do Sul e Indonésia não são considerados ditaduras. A próxima cúpula dos Brics será realizada no Rio de Janeiro, e é esperado que Lula receba diversos desses líderes em solo brasileiro.


Desde que voltou ao poder, Lula tem mantido contato frequente com líderes de regimes autoritários ou ditatoriais. Embora o Brasil tenha uma tradição de manter diálogo com todos os países, independentemente de suas ideologias, a quantidade de encontros e a proximidade demonstrada com alguns líderes têm causado estranheza, especialmente diante do discurso de campanha centrado na defesa da democracia. Seja por razões comerciais ou ideológicas, o petista parece estar priorizando alianças com governos que, muitas vezes, não respeitam os mesmos valores que ele defendeu durante a eleição.

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