Na quarta-feira (4), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva desembarcou em solo francês para uma das viagens internacionais mais aguardadas do ano. O objetivo não é só diplomático — é simbólico, político e, segundo muitos analistas, um esforço para reerguer sua imagem internacional após meses de críticas sobre judicialização excessiva, polarização crescente e medidas fiscais impopulares no país.
A agenda oficial inclui encontros com o presidente Emmanuel Macron, debates sobre mudança climática, guerra em Gaza, e tentativas de acelerar o acordo comercial entre União Europeia e Mercosul, que segue travado por resistência francesa. Mas o primeiro evento marcante será a entrega de um título inusitado: Doutor Honoris Causa pela Universidade de Paris 8, uma instituição historicamente alinhada à esquerda política e acadêmica.
Um Título Político ou Um Reconhecimento Real?
O título de “doutor honorário” é uma tradição acadêmica francesa que remonta a 1918. Ele é dado a personalidades que se destacaram em ciências, artes ou serviço público. E foi exatamente isso que Annick Allaigre, presidente da universidade, justificou ao entregar a honraria a Lula:
“Certamente, ele tem demonstrado determinação e capacidade para reunir uma frente ampla que salvou a democracia brasileira de outra vitória da extrema-direita.”
Só que essa visão é controversa. Enquanto setores da esquerda veem Lula como defensor da democracia, milhões de brasileiros vêem o atual governo como autoritário, com práticas de censura digital, prisões políticas e judicialização de temas ideológicos.
E aqui surge a pergunta: será que esse título é mesmo uma homenagem acadêmica ou uma manobra política para fortalecer a imagem de Lula no exterior, num momento em que ele enfrenta derrocada eleitoral dentro do Brasil?
A Pauta Ambiental: O Discurso de Lula e a Contradição Com a Petrobras
Durante coletiva em Brasília, antes da viagem, Lula já adiantou os principais temas:
“Certamente vamos discutir a guerra da Rússia e Ucrânia, o massacre do Exército de Israel na Faixa de Gaza, o acordo UE-Mercosul, segurança pública, educação e ciência e tecnologia.”
Mas um dos assuntos mais sensíveis é a exploração petrolífera na Foz do Amazonas, onde a Petrobras planeja novos poços. Isso gerou onda de críticas de ambientalistas europeus, especialmente na França, onde jornais como Le Monde questionaram Lula diretamente sobre o projeto.
Ele respondeu com firmeza:
“O Brasil não renunciará à exploração para seu desenvolvimento. A perfuração ocorrerá a 500 quilômetros do Delta do Amazonas e não haverá problemas. E se houvesse o menor risco, eu seria o primeiro a me opor a tal projeto.”
Essa resposta parece equilibrar dois lados: o discurso verde exigido pelo mundo ocidental e a pressão econômica doméstica, onde subsídios aos combustíveis mantêm gasolina barata, mas colocam a Petrobras em prejuízo bilionário.
Enquanto isso, empresas estrangeiras continuam saindo do país, investidores hesitam e o STF se torna alvo de sanções internacionais.
A COP-30 Como Moeda de Troca: Será Que o Brasil Consegue Apoiadores Reais?
Com a ausência dos Estados Unidos no Acordo de Paris sob o governo Trump, Lula precisa encontrar aliados para garantir o sucesso da COP-30, que será realizada em Belém (PA) em novembro.
E a França aparece como parceira crucial nesse jogo. Macron já indicou publicamente que está “especialmente comprometido” em fazer da conferência um “sucesso”, com metas claras de redução de emissões.
O embaixador Flávio Goldman, diretor do Departamento da Europa no Itamaraty, explicou:
“Lula terá vários encontros com Emmanuel Macron, nos quais discutirá aspectos relevantes do relacionamento bilateral e temas da agenda internacional de importância dos dois países, como a necessidade de reforma da governança global, a defesa do multilateralismo, o combate ao extremismo e a preparação para a COP30.”
Só que há ironia. Enquanto Lula fala de “combate ao extremismo”, ministros do STF seguem perseguindo vozes dissidentes, e prefeitos bolsonaristas são investigados por supostas fake news.
E quanto mais Lula tenta vender a imagem de estadista ambientalista, mais ele se afasta da realidade do povo brasileiro, que paga impostos altos, sofre com inflação de serviços essenciais e vê empresas digitais deixarem o país por ordens ilegais emanadas do ministro Alexandre de Moraes.
O Acordo Comercial UE-MercOSUL: O Desentendimento Que Não Vai Embora
Apesar do alinhamento aparente, a maior divergência entre Brasil e França está no acordo comercial entre União Europeia e Mercosul, algo que Macron classificou como “inaceitável” em dezembro de 2024.
O motivo é claro: protecionismo agrícola. A França teme que produtos sul-americanos, principalmente carne bovina, invadam seu mercado e prejudiquem agricultores locais.
Além disso, grupos ambientalistas europeus usam o acordo como bandeira, dizendo que ele pode incentivar o desmatamento. Eles querem que produtos vinculados a áreas desmatadas após 2020 sejam barrados no bloco — uma medida que afeta diretamente exportações brasileiras, e que o Ministério da Agricultura já classificou como injusta e discriminatória.
“Estas novas diretrizes dificultam o acesso ao mercado europeu de produtos brasileiros, da América Latina e de outras origens. Incentivos positivos são mais eficazes na promoção da proteção ambiental, compensando aqueles que prestam serviços ambientais”, afirmou o ministério em nota recente.
E Lula vai usar a viagem para tentar convencer Macron a mudar de posição.
Lei Antidesmatamento Europeia: Quando o Comércio Vira Arma Ideológica
A nova lei europeia proíbe a entrada de sete commodities — entre elas carne bovina e soja — se elas forem produzidas em áreas desmatadas depois de 31 de dezembro de 2020.
O argumento do bloco é que consumidores europeus não devem financiar indiretamente o desmatamento. Mas o Brasil vê isso como uma forma de barreira comercial disfarçada de preocupação ambiental.
O problema é que essa visão não é exclusividade brasileira. Países africanos e asiáticos também começam a reclamar do tratamento diferenciado dado a regiões fora da Europa.
E, ironicamente, essa pressão ambiental chega num momento em que o próprio Brasil aumenta sua produção de petróleo e gás, o que contradiz o discurso verde do Planalto, mas reforça a narrativa de que o país não abrirá mão de seu potencial produtivo por pressão externa.
Reciprocidade Como Nova Arma Comercial: O Que Lula Pretende Fazer?
Para responder às restrições europeias, Lula sancionou em abril a chamada Lei da Reciprocidade, que permite ao Brasil retaliar tarifas e sanções comerciais unilaterais.
A legislação dá ao governo poder legal para impor tarifas adicionais, suspender concessões comerciais e até negar proteção de propriedade intelectual a países que adotem posturas hostis contra o Brasil.
A senadora Tereza Cristina, autora do parecer no Senado, disse:
“Em um cenário global onde as nações estão cada vez mais adotando posturas protecionistas, a Lei da Reciprocidade oferece ao Brasil um instrumento essencial para se proteger em caso de medidas desproporcionais, sempre priorizando o diálogo e a diplomacia.”
Mas será que o Brasil consegue realmente usar isso de forma eficaz?
Se ele não conseguir blindar a Petrobras de prejuízos, se não resolver o rombo do INSS, e se continuar usando o Judiciário como braço político, então nenhuma reciprocidade comercial terá força real.
Crítica da Oposição: Lula Viaja, Mas Ignora Crises Reais no Brasil
Enquanto Lula embarca em mais uma viagem internacional, a crise fiscal nacional segue sem solução clara. O aumento do IOF, anunciado em maio, gerou reação imediata no Congresso Nacional. E o governo agora estuda alternativas para fechar suas contas públicas.
O deputado Maurício Marcon (Podemos-RS), membro da oposição, criticou duramente a decisão de viajar:
“Enquanto ele aumenta impostos para o povo, segue viajando a passeio. Com popularidade no chão, sabe que o tour pago com dinheiro público logo vai acabar.”
Especialistas alertam: quanto mais Lula busca apoio no exterior, menos ele resolve os problemas reais dentro do país. E enquanto ele fala de sustentabilidade, sua própria equipe faz planos de explorar petróleo em escala, algo que pode levar à importação de óleo nos próximos anos, caso os investimentos continuem sendo postergados.
Por Que Lula Está Indo Para a França?
A resposta não é apenas ambiental ou comercial. É também uma tentativa de recuperar legitimidade internacional, algo que tem sido abalado desde que Moraes passou a ser visto como símbolo da censura judicial.
No mês passado, o secretário de Estado Marco Rubio declarou que há "grande possibilidade" de Alexandre de Moraes ser incluído na lista de indivíduzidos pela Lei Magnitsky, com bloqueio de ativos, vistos negados e até investigações legais contra o ministro no sistema americano.
E a saída de Carla Zambelli, que foi condenada a 10 anos de prisão por suposta invasão ao CNJ, só mostra que o Brasil vive hoje uma era de judicialização da política, onde prisões podem ser motivadas tanto por crime quanto por discordância ideológica.
Será Que a Visita Vai Trazer Resultados Reais?
Muitos duvidam. Por quê?
Porque Lula está indo pedir ajuda a quem já vê o Brasil com desconfiança, e porque Macron não tem mandato eterno na França, nem influência suficiente para convencer outros países europeus a aceitarem o acordo com o Mercosul.
Além disso, a relação com os EUA continua tensa, e Trump já mostrou que não tem medo de retaliações comerciais. Se Lula espera contar com Paris para neutralizar Washington, talvez esteja apostando errado.
Uma Viagem Cheia de Simbolismos, Poucos Resultados e Mais Pressão Internacional
Lula chega à França numa hora delicada. Sua popularidade cai, sua estratégia eleitoral depende do controle do Senado em 2026, e sua gestão enfrenta críticas por causa do aumento de impostos e da politização do STF.
A visita pode ser importante para tentar reconstruir pontes com a Europa, mas ela ignora os verdadeiros desafios do Brasil: um Judiciário partidário, um Executivo populista e uma economia fragilizada por decisões ideológicas.
E,ironicamente, quanto mais Lula busca legitimidade lá fora, mais ele perde credibilidade cá dentro.

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