Lula tenta mostrar resultados, mas novo PAC não empolga como esperado
Lançado no ano passado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva como uma das grandes apostas para impulsionar o desenvolvimento do país, o novo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) ainda não mostrou os resultados prometidos. Apesar de ser apresentado como um plano ambicioso, ele não tem gerado o impacto político que o governo esperava especialmente em um ano pré-eleitoral.
O objetivo inicial era retomar ou iniciar cerca de 23 mil obras em quatro anos. Mas até agora, quase metade delas (48,6%) ainda está na fase de planejamento: licenciamentos ambientais, estudos técnicos e contratações. Ou seja, nem começaram a sair do papel.
Do total previsto, apenas 3,8 mil obras foram concluídas, outras 5 mil estão em andamento e cerca de 2,8 mil estão em processo de licitação. Um exemplo é o Ramal Apodi, parte da transposição do Rio São Francisco, entregue parcialmente por Lula recentemente. A obra foi iniciada ainda no governo anterior e, mesmo sem estar totalmente pronta, virou destaque em um evento com o presidente.
“Sempre vai existir a seca, agora a fome por causa dela é falta de vergonha na cara das pessoas que governam esse país. O rio nasceu em Minas Gerais, ele passa por aqui e depois vai para o mar. Eu quero pegar um pouco dessa água antes que chegue ao oceano e trazer de volta para o povo do sertão”, afirmou Lula durante o evento.
Enquanto isso, o Ministério da Fazenda trava um esforço para economizar R$ 31,3 bilhões do Orçamento federal, e parte desse corte atinge diretamente o PAC. Cerca de R$ 7 bilhões previstos para obras devem ficar de fora. Mesmo assim, Lula garante que o programa segue “andando com rapidez”.
“Nunca houve no país um momento de tanta combinação entre políticas de inclusão social, mais emprego, salário e programas sociais junto com o PAC. Até agora já executamos 711 bilhões nas obras do PAC, públicas e privadas. As coisas estão andando sim”, disse o presidente há alguns dias.
Pequenas obras, grandes esforços
Com as grandes obras demorando para sair do papel, o governo passou a investir em ações menores, como entrega de ambulâncias, escolas e postos de saúde. Essa estratégia faz parte de uma tentativa de mostrar presença e movimento, mesmo com a popularidade do presidente em queda.
Segundo uma pesquisa feita pela Quaest, a desaprovação ao governo Lula chegou a 57%, enquanto a aprovação está em 40%. O índice é mais alto nas regiões Sudeste (64%), Sul (62%) e Centro-Oeste/Norte (55%). No Nordeste, a desaprovação também é alta, mas menor: 44%.
Diante disso, Lula tem viajado bastante pelo Brasil. Depois de voltar de uma viagem à França, o presidente deve retomar sua agenda com inaugurações menores, buscando aproximação com a população. Além disso, o governo lançou um braço do PAC focado em educação infantil: serão construídas 500 creches e comprados mil ônibus escolares, com investimento de R$ 2,3 bilhões.
Apesar disso, dentro do próprio Palácio do Planalto, muitos reconhecem que essas entregas têm menos impacto político do que projetos maiores, como ferrovias ou portos.
"Estamos em modo campanha. Tirar Lula do Palácio dá a ideia de movimento e proximidade com o povo. O tamanho da obra pouco importa, o importante é mostrar que ele está presente", disse Jilmar Tatto, secretário nacional de Comunicação do PT.
Tensão com governadores
As viagens do presidente também têm gerado atritos com alguns governadores. Em Santa Catarina, por exemplo, Lula reclamou da ausência do governador Jorginho Mello em um evento oficial. “Estão com raiva, não vieram, nem virão e não têm coragem de dizer o que fizeram pelo país”, disse o presidente.
O ministro Silvio Costa Filho chamou o governador de "ingrato". Já Jorginho rebateu nas redes sociais, afirmando que o governo federal não investe proporcionalmente no estado. “A cada R$ 100 que mandamos para Brasília, recebemos só R$ 10 de volta. Ainda somos ingratos?”, questionou.
Também em eventos realizados em Brasília, poucos governadores compareceram. Na divulgação do PAC Seleções, por exemplo, apenas oito dos 27 estados estiveram presentes. Mesmo assim, Lula destacou o modelo participativo do novo PAC: “Quando a gente faz PAC Seleções, é novidade na política brasileira. Nunca se chamou estados e municípios para discutir políticas públicas, era tudo amizade, compadrio”.
O novo PAC continua enfrentando desafios tanto na execução quanto na imagem política. Enquanto grandes obras demoram a sair do papel, o governo aposta em ações menores e em viagens do presidente para tentar recuperar a confiança da população. Mas, diante da crise fiscal e da resistência de aliados, o caminho parece longo e Lula sabe que precisa mostrar mais resultados se quiser garantir um legado forte até 2026.

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