No mundo político brasileiro, poucas figuras estão no centro de uma batalha tão complexa quanto Eduardo Bolsonaro (PL-SP). Deputado federal licenciado, ex-presidente do PL e filho do ex-chefe do Executivo, ele agora enfrenta um dilema: aceitar uma possível candidatura à Presidência da República em 2026 — algo que ele mesmo admitiu recentemente — ou continuar sua estratégia internacional de denúncias contra o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), que pode resultar em sanções americanas.
Mas há obstáculos reais nesse caminho. E eles vão muito além do jogo eleitoral. Estão no campo da perseguição judicial, da prisão preventiva e até da perda do mandato parlamentar, caso Eduardo decida retornar ao Brasil.
A Missão Dada Pelo “Pai” ou Pela Necessidade Político-Eleitoral?
Tudo começou com uma declaração feita por Eduardo à revista Veja, no final de maio. Ele afirmou que aceitaria ser candidato à Presidência se essa fosse uma missão dada pelo seu pai, Jair Bolsonaro. A resposta do atual presidente foi imediata e inflamada:
“Lamentável é que um deputado brasileiro, filho do ex-presidente, está lá para convocar os Estados Unidos a se meterem na política interna do Brasil. Isso é grave. É isso que é terrorismo.”
Essas palavras, proferidas por Luiz Inácio Lula da Silva durante evento em Brasília, não só aumentaram a polarização como deram munição a Eduardo. Por quê? Porque quanto mais o PT tenta pintar o filho de Bolsonaro como inimigo do Estado, mais ele ganha força entre setores da direita que já veem o STF como politizado e autoritário.
Especialistas dizem: essa narrativa de Lula pode estar ajudando, sem querer, a fortalecer a imagem de Eduardo como um crítico legítimo das práticas judiciais do tribunal careca.
O Papel Internacional de Eduardo: Um Ativo ou Uma Fraqueza?
Nos últimos meses, Eduardo tem mantido contato frequente com senadores e autoridades dos Estados Unidos, especialmente após o governo Trump começar a considerar a aplicação da Lei Global Magnitsky contra Alexandre de Moraes. O secretário de Estado Marco Rubio já afirmou publicamente que há “grande possibilidade” de sanções contra o ministro, incluindo restrição de vistos, bloqueio de contas bancárias e até impedimento de transações comerciais.
Para analistas, essa proximidade com Washington pode ser tanto um ativo quanto uma armadilha. Por um lado, mostra que Eduardo tem influência real nas relações internacionais, algo raro em políticos brasileiros. Por outro, isso alimenta a visão de que ele estaria fazendo campanha externa antes de qualquer projeto nacional.
“O fato de o governo americano estar respondendo positivamente às demandas trazidas por Eduardo mostrou o prestígio dele”, afirma Adriano Cerqueira, cientista político do Ibmec.
Mas será que esse apoio internacional se traduzirá em votos dentro do Brasil?
Campanha no Exterior: Como Conquistar o Eleitorado de Longe?
Se Eduardo decidir seguir adiante com a candidatura, ele terá que conduzir a campanha de fora do país, algo que, historicamente, não favorece candidatos presidenciais. Afinal, política eleitoral é corpo a corpo, é presença física, é conexão emocional com o povo brasileiro.
Marcelo Almeida, sociólogo e especialista em comunicação política, explica:
“Se [Eduardo] se candidatar e permanecer nos EUA, teria problemas em fazer sua campanha eleitoral no corpo a corpo. Se voltar, ele pode ser preso.”
Isso não é teoria. É prática. No início de junho, o líder do PT na Câmara, Lindbergh Farias, entrou com representação formal na Procuradoria-Geral da República (PGR) pedindo a retenção de seu passaporte e investigação criminal por suposta obstrução de justiça e coação no curso do processo.
E o pior: a decisão sobre prisão ou não caberá ao próprio ministro que está sendo criticado — Alexandre de Moraes.
Juridicamente, Eduardo Pode Ser Candidato Fora do País?
André Marsiglia, constitucionalista, esclarece:
“É possível se candidatar estando fora do país, desde que o interessado seja filiado a um partido político brasileiro e tenha domicílio eleitoral regularmente registrado na Justiça Eleitoral.”
Além disso, Eduardo poderia votar em seção eleitoral no exterior, mas para ser diplomado e assumir o cargo, precisaria retornar ao Brasil.
Luiz Augusto Módolo, advogado especialista em Direito Eleitoral, completa:
“A Justiça costuma interpretar o conceito de domicílio eleitoral de forma ampla, levando em conta atividades profissionais, familiares e políticas, mesmo que a pessoa não resida fisicamente no local.”
Mesmo assim, sua ausência física no cenário nacional é um ponto frágil. Sem eventos públicos, sem aparições em debates e sem agenda política fixa no país, ele corre o risco de parecer distante da realidade do eleitor médio brasileiro.
O Risco de Prisão Preventiva e a Guerra Jurídica Com o STF
A principal ameaça vem do Supremo Tribunal Federal. Na semana anterior à sua entrevista à Veja, o STF abriu um novo inquérito contra Eduardo, sob acusação de obstrução de investigação de organização criminosa, coação no curso do processo e tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito.
O problema é que esses crimes são vagos e genéricos, e já foram usados anteriormente para perseguir outras vozes dissidentes. Além disso, não há evidências claras de envolvimento direto de Eduardo em qualquer plano golpista ou ação concreta de ruptura institucional.
Mas Moraes parece determinado a punir quem desafia sua jurisdição. E, ironicamente, essa investida contra Eduardo pode acabar se tornando o maior motor de mobilização da direita.
Será Que os Votos do Pai Chegam Até o Filho?
Uma das grandes incógnitas da corrida eleitoral de 2026 é a capacidade de Eduardo de transferir os votos de Jair Bolsonaro para si, especialmente diante da inelegibilidade do ex-presidente.
Elton Gomes, professor da Universidade Federal do Piauí, destaca:
“Podemos dizer que Eduardo se cacifou, aumentou sua capacidade de articulação. Mas ainda é preciso esperar um pouco mais para saber qual é sua verdadeira capacidade política eleitoral como candidato recebendo transferência de votos do pai.”
Pesquisas já começam a mostrar essa dificuldade. Segundo o instituto Gerp, Eduardo teria apenas 18% das intenções de voto, enquanto Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP) aparece com 49% contra 47% de Lula. Já Michelle Bolsonaro, ex-primeira-dama e figura cada vez mais presente na cena política, chega a 49,8% contra 45,3% do petista.
Isso significa que Eduardo ainda tem um longo caminho pela frente, e precisa construir uma narrativa própria, fora da sombra paterna, se quiser realmente disputar a Presidência.
A entrada de Eduardo Bolsonaro na corrida presidencial marca mais um capítulo dessa guerra judicial travada entre Brasil e Estados Unidos. Não se trata de um ataque generalizado à democracia, mas sim de uma resposta a práticas que violam tratados internacionais e princípios elementares de liberdade de expressão.

0 Comentários